Racismo explode na Copa de 2026: 89 mil posts ofensivos na fase de grupos
Racismo explode na Copa de 2026: 89 mil posts ofensivos

Um fato ocorrido após a vitória da França por 1 a 0 sobre o Paraguai, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, atraiu quase tanta atenção quanto a partida em si. Imediatamente após o jogo, a senadora paraguaia Celeste Amarilla publicou uma série de comentários sobre o capitão francês, Kylian Mbappé, descritos por ele como racistas. As postagens geraram discussões públicas, uma investigação da procuradoria francesa e reações políticas negativas no Paraguai.

Linguagem perigosa e precedente

“A linguagem extrema usada por ela e a normalização desta linguagem estabelecem um precedente perigoso”, afirma o ex-jogador de futebol profissional Troy Townsend, ex-chefe de engajamento dos jogadores da organização britânica Kick It Out, que enfrenta a discriminação no futebol. Para ele, “é uma mentalidade e um comportamento que existem há muito tempo e explodem em uma das maiores ocasiões”.

Lista de abusos durante o torneio

A polêmica com Mbappé foi apenas um dentre diversos incidentes durante o torneio. Eles incluíram: três jogadores holandeses que sofreram racismo na internet após perderem pênaltis contra o Marrocos, nos 16 avos de final; um torcedor argentino que mandou um influenciador das redes sociais “ir chorar no zoológico”; um torcedor mexicano que pediu desculpas por fazer um gesto racista para um coreano; e torcedores do Egito e de Cabo Verde que declararam terem sido alvo de cerveja e garrafas atiradas por torcedores argentinos. O técnico do Egito, Hossam Hassan, também usou o gesto oficial da Fifa para denúncias antirracismo durante uma partida.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Explosão de abusos online

A escala dos abusos parece não ter precedentes, segundo dados da própria Fifa. O Serviço de Proteção das Redes Sociais da entidade identificou mais de 89 mil postagens ofensivas somente na fase de grupos, um aumento de 13 vezes em relação à Copa de 2022, no Catar. O abuso com motivações raciais representou 11% de todas as mensagens ofensivas detectadas. A Fifa destacou que fatores como a ampliação do torneio de 32 para 48 seleções e os avanços da tecnologia de detecção podem ter contribuído para o pico.

Alerta do sindicato de jogadores

Em vista das conclusões da Fifa, o sindicato mundial dos jogadores de futebol, Fifpro, alertou que os atletas enfrentam um “padrão crescente de abuso”, pessoalmente e na internet. “Estes incidentes não são isolados”, segundo a organização. “Eles indicam um padrão sistêmico que não pode continuar sendo aceito no futebol, nem na sociedade.”

Racismo se adapta às novas tecnologias

Pesquisadores que estudam o racismo no futebol alertam que estes incidentes fazem parte de uma tendência maior. “O racismo nunca desapareceu. O racismo é muito esperto e muda de forma a cada geração”, afirma o professor Daniel Kilvington, da Universidade Leeds Beckett, no Reino Unido, um dos fundadores da rede Esporte & Discriminação. Kilvington defende que, embora o racismo declarado nos estádios tenha diminuído em relação a décadas atrás, as redes sociais forneceram um novo canal de difusão dos abusos, de forma rápida e global. “Mas o que é problemático não é apenas a migração do racismo para os espaços online, empoderando as pessoas para dizerem coisas abusivas. Nos estádios e no seu entorno, também estamos começando a ver o seu retorno aumentar.”

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Sanções insuficientes e deepfakes

Townsend acredita que o abuso no estádio deve ser tratado separadamente do abuso na internet. Para ele, as autoridades futebolísticas relutam em impor sanções graves. “Precisamos começar a ver prisões, sanções a países devido aos seus torcedores, sua eliminação de competições… Se você não consegue controlar seus torcedores, por que deveria poder jogar em algumas das maiores competições do mundo?”, questiona. Kilvington também alerta que a inteligência artificial e a tecnologia deepfake criam novas oportunidades para difundir desinformações racistas. Ele cita um vídeo falso em que o técnico da Holanda, Ronald Koeman, faz observações racistas. Ele acredita que parte do conteúdo abusivo seja cultivado por grupos de ódio. “Podem ser torcedores de futebol ou talvez sejam ligados a grupos de extrema-direita… Eles espalham desinformação e fake news para tentar atrair e potencialmente recrutar esses torcedores para sua forma de pensar”, explica Kilvington.

Impacto na saúde mental e racismo sistêmico

O impacto do racismo enfrentado pelos jogadores se estende para além do campo, prejudicando carreira profissional, saúde mental e vida familiar, segundo Townsend. Ele conta ter ficado aliviado pela derrota da Inglaterra na semifinal para a Argentina por 2 a 1 ter evitado a cobrança de pênaltis. “Fiquei muito satisfeito pelo jogo não incluir um erro de um jogador negro”, explica. “Fico contente por não termos acordado esta manhã com uma explosão de abusos contra esses jogadores.” Townsend afirma que ele próprio enfrentou vários abusos. “Quando você recebe um emoji de macaco, você sabe exatamente o que aquilo significa”, lamenta. “Recebi mensagens como: ‘Espero que você morra em breve.’ E foi de um jovem com menos de 16 anos de idade. Mas, entre os piores abusos, estão as imagens do grupo supremacista branco americano Ku Klux Klan e as imagens de pessoas negras sendo enforcadas. Elas são enviadas para os jogadores o tempo todo.” Para Townsend e Kilvington, o racismo observado na Copa do Mundo de 2026 não é apenas uma história do futebol. Eles dizem que os abusos refletem tendências mais amplas da sociedade, com as redes sociais amplificando a hostilidade, o anonimato e a polarização. “O racismo infecta todo o sistema, é racismo sistêmico”, afirma Kilvington. Para ele, a Copa do Mundo “é apenas um microcosmo, em um esporte, em um momento. O racismo existe em todo o mundo, em todos os outros setores da vida.”