A morte da advogada criminalista Ana Paula Rocha de Jesus, de 38 anos, assassinada a tiros pelo ex-marido em Governador Valadares, gerou comoção e reacendeu o debate sobre a eficácia das medidas de proteção à mulher. O crime ocorreu na tarde de terça-feira (16), em um estacionamento no Centro da cidade. Segundo a Polícia Militar, o ex-companheiro atirou contra a vítima e, em seguida, cometeu suicídio.
Pedido de prisão horas antes
A promotora de Justiça Carla Salaro, que acompanhava o caso, revelou que o Ministério Público (MP) protocolou um pedido de prisão preventiva contra o agressor por volta das 13h50 do mesmo dia do crime. Infelizmente, a ordem judicial não foi cumprida a tempo. “Eu analisei os fatos e entendi que as medidas protetivas já não eram suficientes para resguardar a integridade física dela. Infelizmente, não deu tempo”, lamentou a promotora.
Este não foi o primeiro pedido de prisão contra o suspeito. Em novembro de 2025, o MP já havia solicitado a prisão preventiva, mas o pedido foi indeferido pela Justiça.
Histórico de violência e medidas protetivas
De acordo com Carla Salaro, Ana Paula buscava proteção desde 2024, quando solicitou a primeira medida protetiva contra o ex-marido. Ao todo, foram três medidas registradas ao longo dos últimos anos. As duas primeiras foram revogadas a pedido da própria vítima. Em uma das ocasiões, a decisão foi motivada pela grave doença da filha do casal, que enfrentava um câncer em estágio terminal.
“A violência doméstica tem natureza cíclica. É composta por fases: a fase da lua de mel, a fase do aumento da tensão, da explosão da tensão. Então, a mulher acaba retrocedendo em momentos de calmaria”, explicou a promotora.
Outras medidas solicitadas
Além dos pedidos de prisão, o MP solicitou outras providências para conter as perseguições relatadas pela advogada, como o monitoramento eletrônico do agressor por tornozeleira e o encaminhamento dele para grupos reflexivos voltados a autores de violência doméstica. O pedido para participação nos grupos foi indeferido, e o MP recorreu. Já a tornozeleira eletrônica nunca chegou a ser efetivamente utilizada. Ana Paula também buscou o botão do pânico, mecanismo previsto na legislação.
Alerta da promotora
Durante entrevista, Carla Salaro reforçou a importância de as vítimas denunciarem ameaças e não minimizarem comportamentos agressivos. “Muitas vezes, por conhecerem essas pessoas há anos, as vítimas acreditam que elas não seriam capazes de cometer algo tão grave. Mas podem ser. É importante que a violência não seja subestimada”, alertou.
O caso é investigado pela Polícia Civil como feminicídio seguido de suicídio. A advogada, que atuava na defesa de mulheres, deixa uma filha.



