O Brasil poderá enfrentar um déficit de motoristas profissionais nos próximos cinco anos caso não aumente o número de pessoas habilitadas. O alerta é do ministro dos Transportes, George Santoro, que, em entrevista exclusiva ao Estradão e ao Jornal do Carro, também falou sobre os avanços da CNH Brasil, a integração do Free Flow à CNH Digital, os investimentos em rodovias, a infraestrutura para veículos elétricos e os desafios do transporte de cargas no País.
CNH Brasil como solução para a falta de motoristas
O programa CNH Brasil, lançado neste ano para reduzir custos e ampliar o acesso à habilitação, é uma das principais apostas do Ministério dos Transportes para enfrentar a falta de motoristas profissionais. Segundo Santoro, a iniciativa já apresenta resultados positivos e deve ganhar novas etapas, com parcerias para ampliar a oferta de treinamento e qualificação de condutores. Na avaliação do ministro, o aumento do número de habilitados é essencial para garantir a renovação da mão de obra no transporte rodoviário de cargas, responsável por cerca de 60% da movimentação logística do País. Ele afirmou que, sem ampliar essa base, o Brasil poderá enfrentar dificuldades para suprir a demanda por caminhoneiros nos próximos anos.
Durante a entrevista, Santoro também comentou a evolução do sistema de pedágio eletrônico Free Flow, defendeu o modelo de concessões rodoviárias, falou sobre os investimentos em infraestrutura, a expansão da rede de abastecimento para veículos elétricos e movidos a gás e os estudos conduzidos pelo governo sobre a Faixa Azul para motociclistas.
Resultados da CNH Brasil e próximos passos
Perguntado sobre os resultados do programa CNH Brasil, Santoro afirmou: “A CNH Brasil é um sucesso estrondoso. O País tinha milhões de brasileiros dirigindo sem carteira porque não tinham dinheiro ou tempo para concluir todo o processo de habilitação. Ao permitir aulas teóricas on-line e ampliar as possibilidades de contratação de instrutores, reduzimos custos e aumentamos o acesso.” O ministro destacou que o próximo passo é ampliar os mecanismos de treinamento e firmar parcerias com guardas municipais, polícias e Forças Armadas para formar mais motoristas. “Se o Brasil não enfrentar esse desafio, daqui a cinco ou seis anos teremos um problema de motoristas profissionais”, alertou.
Integração do Free Flow à CNH Digital
Santoro explicou que o Ministério estuda integrar o Free Flow à CNH Digital para evitar multas por não pagamento de pedágio. “Muitas pessoas foram multadas porque passaram pelo pórtico e não pagaram a tarifa dentro do prazo. Isso aconteceu porque a implantação não foi uniforme nem transparente. Fizemos um freio de arrumação, anulamos essas multas e estabelecemos um novo prazo.” Segundo ele, as concessionárias têm 100 dias para integrar as informações à CNH Digital. “Depois disso, o motorista receberá um aviso sempre que passar por um pórtico. Queremos seguir uma tendência mundial, mas sem pegadinha e sem erro.”
Prioridades em rodovias e concessões
Questionado sobre a prioridade entre ampliar a malha rodoviária ou melhorar as estradas existentes, Santoro afirmou: “Primeiro precisamos manter e melhorar o que já existe. Depois, ampliar a capacidade com terceiras faixas, duplicações e dispositivos de segurança.” Ele mencionou o novo Plano Nacional de Logística, que já identifica os corredores que precisam de investimentos. “Nas concessões, as melhorias começam logo nos primeiros meses do contrato. Hoje já vemos resultados importantes, como as obras na Serra das Araras, e essa percepção será cada vez maior nos próximos anos.” O ministro também destacou a necessidade de corrigir traçados, reduzir riscos em curvas e criar áreas de parada e descanso.
Desafios para atrair jovens para a profissão de caminhoneiro
Santoro reconheceu que a idade média dos caminhoneiros aumenta e a profissão perde atratividade entre os jovens. “Precisamos ampliar a quantidade de motoristas habilitados. Com a CNH Brasil, mais pessoas terão condições de chegar à habilitação profissional. Também precisamos melhorar a segurança das rodovias. O motorista precisa ter confiança de que vai sair para trabalhar e voltar em segurança para casa.” Ele acrescentou que, em relação à jornada de trabalho, será necessário harmonizar as normas existentes para dar mais segurança jurídica ao setor.
Infraestrutura para veículos elétricos e renovação da frota
O ministro informou que as concessões rodoviárias preveem incentivos para ampliar a infraestrutura de recarga de veículos elétricos. “Até 3% da receita das concessões pode ser destinada à transição energética e à infraestrutura resiliente. As concessionárias já desenvolvem projetos para instalar carregadores elétricos e também postos de abastecimento de gás natural e GNL ao longo das rodovias.” Sobre a renovação da frota de caminhões, Santoro disse que o Ministério dos Transportes oferece infraestrutura para a transição, enquanto a política é conduzida pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. “Estamos estimulando corredores de abastecimento com gás e realizando testes para regulamentar caminhões 100% elétricos. O desafio é que esses veículos são mais pesados e exigem estudos sobre o impacto no pavimento das rodovias.”
Faixa Azul para motociclistas
Santoro comentou que o Ministério ainda não tem uma conclusão sobre os resultados da Faixa Azul para motociclistas em São Paulo. “Recebemos os dados da Prefeitura de São Paulo e, em uma análise preliminar, eles podem dar a impressão de que a medida não trouxe o resultado esperado. Mas não é possível tirar essa conclusão apenas olhando os números. É preciso entender todo o contexto, inclusive o aumento da frota de motocicletas.” Por isso, foi criado um centro de estudos de acidentes de trânsito para produzir análises técnicas e orientar políticas públicas.
Resposta às críticas sobre a qualidade da formação
Em resposta às críticas de que a CNH Brasil poderia reduzir a qualidade da formação, Santoro afirmou: “Nós não mudamos nenhuma prova nem reduzimos qualquer exigência para a obtenção da habilitação. O que fizemos foi simplificar o acesso e diminuir a burocracia. Esse discurso parte de quem não quer concorrência. Na prática, tivemos aumento de 25% nas aprovações, com as mesmas provas aplicadas anteriormente.” Ele concluiu: “Muita gente faz política pública sem olhar dados e evidências. No Ministério dos Transportes, fazemos tudo com base em dados e evidências.”



