Leonardo Gil Lima, conhecido como "Léo Lanches", de 33 anos, foi morto a tiros na noite de quinta-feira (23) durante uma incursão da Polícia Militar no bairro de São Cristóvão, em Salvador. Seis dias antes, ele havia realizado o sonho de inaugurar a própria lanchonete. Familiares e moradores da comunidade de Lessa Ribeiro contestam a versão oficial da corporação e afirmam que Leonardo foi executado na porta de casa, sem envolvimento com o crime.
Sonho interrompido
De acordo com o primo da vítima, Franklin, Leonardo trabalhava há anos vendendo lanches e decidiu investir no próprio comércio para ampliar a renda da família. "Ele foi executado na porta da casa dele, com um tiro na cabeça. Deixou dois filhos e uma esposa. Era um homem trabalhador e tinha seis dias que tinha inaugurado o comércio dele", relatou Franklin, visivelmente abalado. A inauguração da lanchonete era motivo de orgulho e alegria para o vendedor, que comemorava a conquista com amigos e parentes.
A versão da Polícia Militar
Em nota oficial, a Polícia Militar informou que equipes da 49ª Companhia Independente (CIPM) realizavam patrulhamento na região quando se depararam com homens armados. Houve troca de tiros e, ao final da ocorrência, os policiais encontraram Leonardo baleado. Ele foi socorrido ao Hospital Menandro de Farias, mas não resistiu aos ferimentos. Segundo a corporação, os agentes envolvidos na ação utilizavam câmeras corporais, e as imagens serão analisadas durante a investigação. A PM também afirmou que os policiais foram afastados das atividades operacionais e que um procedimento administrativo foi instaurado para apurar a conduta dos militares.
Contestação de familiares e vizinhos
A versão da PM é duramente contestada por familiares e moradores da comunidade. Eles afirmam que Leonardo havia acabado de chegar do trabalho, estava na porta de casa e foi atingido sem qualquer chance de defesa. Uma moradora da região, que preferiu não se identificar, declarou: "Ele tinha acabado de chegar do trabalho dele. Todo mundo aqui pode provar que Léo é inocente, que nunca fez nada. Era evangélico." Segundo ela, o vendedor caiu ao lado da motocicleta logo após ser baleado.
O amigo Wendel contou que conversava com Leonardo por telefone minutos antes da tragédia. "Ele me falou: 'Estou com saudade de você e liguei para a gente conversar'. Logo depois falou: 'Segura aí, segura aí'. Eu só ouvi os disparos. Depois veio um colega dizendo que ele tinha sido morto." Wendel lamentou a perda e reforçou a inocência do amigo.
Investigação e protestos
O caso é investigado pela Polícia Civil e pela Corregedoria da Polícia Militar. A Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) informou que se solidariza com familiares, amigos e vizinhos de Leonardo Gil Lima e que tanto a Polícia Civil quanto a Corregedoria da PM instauraram inquéritos para esclarecer a dinâmica da ocorrência. A corporação assegurou que os policiais envolvidos foram afastados das atividades operacionais e que as imagens das câmeras corporais serão encaminhadas às autoridades.
Na sexta-feira (24), um dia após a morte, familiares e moradores realizaram protestos nas ruas de São Cristóvão pedindo justiça. Durante as manifestações, um ônibus foi incendiado e o transporte público chegou a ser suspenso no bairro. Os manifestantes interditaram vias com entulhos e pneus, exigindo esclarecimentos sobre o ocorrido e a punição dos responsáveis.
Impacto na comunidade
Leonardo Gil Lima deixa a esposa e dois filhos, que agora enfrentam a perda inesperada. A pequena lanchonete, símbolo de seu esforço e dedicação, permanece fechada. Moradores da região expressaram indignação com a violência e cobram uma apuração rigorosa. O caso reacende o debate sobre as ações policiais em comunidades carentes e a necessidade de transparência nas investigações.



