Vídeos de câmeras corporais mostram o momento em que um policial militar do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) atirou e matou o office-boy Herus Guimarães Mendes da Conceição, de 23 anos, durante uma operação no Morro Santo Amaro, na Zona Sul do Rio de Janeiro. O crime ocorreu há um ano, na madrugada de 7 de junho de 2025, enquanto a comunidade realizava sua tradicional festa junina.
Pai cobra justiça
O auxiliar de escritório Fernando Guimarães, pai de Herus, desabafou: “A gente só gostaria de saber por que as leis não valem para policiais. Meu filho foi morto com tiros de fuzil, e o PM que fez isso continua livre e solto. Não dá para entender.”
No dia 4 de fevereiro de 2026, oito meses após a morte, a Justiça do Rio aceitou a denúncia do Ministério Público do Rio (MPRJ) e tornou réus por homicídio o 1º sargento Daniel Sousa da Silva e o 1º tenente Felippe Carlos de Souza Martins. Daniel foi o único policial a efetuar disparos, totalizando 13 tiros. O g1 não localizou a defesa deles. Até a última atualização, a Justiça ainda não decidiu se os militares irão a júri popular, e não há previsão de data para julgamento.
Indenização e pensão
O governo do estado se comprometeu a pagar indenizações por danos morais à família e uma pensão mensal ao filho de Herus, Theo, de 3 anos, até que ele complete 18 anos ou 24, caso esteja matriculado no ensino superior.
Sem pedido de desculpas
Fernando afirma que jamais recebeu um pedido de desculpas. “Sinceramente, o que podemos esperar do outro lado [a polícia]? Nada. Nós, que estamos deste lado, não temos segurança alguma. O policial que autorizou a incursão que matou meu filho foi flagrado meses antes dentro da casa de um morador na Maré. O mesmo PM.”
O tenente Felippe Martins, que comandou a operação do Bope, foi denunciado pelo MPRJ, junto com outros nove colegas, por violação de domicílio, descumprimento de missão e recusa de obediência durante uma operação no Complexo da Maré, em 10 de janeiro de 2025. Segundo a denúncia do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp/MPRJ), os agentes entraram clandestinamente em 13 residências na Nova Holanda, usando chave mestra ou arrombando portas, sem autorização ou ordem judicial. Parte dos policiais dormiu, usou banheiros e consumiu itens das geladeiras dos moradores. A PM afirmou que instaurou um procedimento apuratório e que Felippe foi afastado das funções.
Detalhes dos disparos
De acordo com a denúncia do MP no caso Herus, Daniel efetuou os disparos que mataram o office-boy. Em depoimento, ele disse que foi o único a atirar e que os 13 tiros foram resposta a disparos de traficantes. Essa versão contraria o primeiro posicionamento da PM, que negava disparos dos policiais. “As imagens das câmeras operacionais portáteis demonstram que Herus não esboçou qualquer atitude agressiva e tentou se afastar para se proteger, estando de costas no momento em que foi atingido”, afirmou o MPRJ.
O tenente Felippe foi denunciado por omissão penalmente relevante, por manter a operação mesmo sabendo da festa junina com muitos moradores e crianças. Ambos são réus na 2ª Vara Criminal do RJ por homicídio qualificado por motivo fútil e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima. A Justiça determinou medidas cautelares, como suspensão das atividades de policiamento externo, proibição de acesso a unidades militares diferentes e proibição de contato com testemunhas e familiares da vítima.
Comandante do Bope
O coronel Aristheu de Goes Lopes, comandante do Bope na época da operação e chefe de Felippe e Daniel, foi exonerado, mas passou por vários batalhões. Em 8 de junho de 2026, um dia após o aniversário da morte de Herus, o governador em exercício Ricardo Couto o nomeou subsecretário-adjunto de Comando e Controle da PM, com efeitos retroativos a 26 de janeiro de 2026. No entanto, ele não está mais na função e atualmente lidera o Comando de Policiamento Especializado (CPE), responsável por batalhões de áreas turísticas, vias expressas e estádios. Aristheu nunca foi investigado pela Corregedoria da PM na morte de Herus.
A Polícia Militar afirmou, por nota, que “não há qualquer determinação judicial que impeça” Aristheu Lopes “de exercer a função policial” e que a publicação foi um ato administrativo de ajuste retroativo de cargos. Também disse que o inquérito policial militar sobre o caso foi concluído e enviado ao Ministério Público Militar. O g1 questionou o Governo do Estado sobre a nomeação, mas não obteve retorno.
Impacto na família
Fernando relata que, neste um ano, a saúde da esposa piorou e a vida ficou “mais difícil”. “A situação do coração dela piorou. Ela tem o coração grande e os batimentos têm ficado abaixo do normal: chegaram a 40 por minuto e hoje estão em 33. A cirurgia é considerada o último recurso — um transplante, porque o coração dela está dilatado. Ela fica muito abatida, porque a vida ficou mais difícil sem o meu filho”, conta.



