Troca de avião de Trump na Turquia levanta dúvidas sobre segurança
Troca de avião de Trump na Turquia levanta dúvidas

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi obrigado a trocar de aeronave durante o retorno da cúpula da OTAN na Turquia, após o Serviço Secreto recomendar que não utilizasse o novo Boeing 747-8 doado pelo Catar para deixar o país. A orientação ocorreu em meio à retomada dos ataques entre EUA e Irã, reacendendo questionamentos sobre a segurança do avião, colocado em operação às pressas para substituir temporariamente a antiga frota presidencial.

Troca de aeronave e justificativa de Trump

Trump havia desembarcado na Turquia a bordo do novo jato, reformado pela Força Aérea dos EUA ao custo de cerca de US$ 400 milhões. Na volta, porém, embarcou em um dos tradicionais Boeing VC-25A, conhecidos como Air Force One, enquanto a aeronave do Catar seguiu separadamente até uma base militar britânica. Ao anunciar a mudança, o presidente negou que a decisão estivesse relacionada à segurança. Segundo ele, voltaria no avião antigo “por nostalgia”, enquanto o novo jato seguiria antes para a Base Aérea de Mildenhall, no Reino Unido, para ser apresentado aos militares americanos.

“Acabamos de aterrissar e nos encontramos com o nosso novo Air Force One, que foi enviado anteriormente para a RAF Mildenhall, para que pudéssemos mostrá-lo aos maravilhosos militares”, escreveu Trump nas redes sociais. “Eles ficaram muito animados”, disse. Questionado por jornalistas se a troca havia sido motivada por ameaças do Irã, Trump desconversou, mas voltou a afirmar que é um dos principais alvos do governo iraniano. “Estou sob ameaça o tempo todo. Sou o número 1 na lista deles”, declarou.

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Preocupações com a aeronave do Catar

Segundo autoridades americanas familiarizadas com a adaptação do Boeing 747-8, o avião não recebeu todos os sistemas de proteção normalmente presentes em um Air Force One. Entre as ausências estão equipamentos de autodefesa capazes de detectar e neutralizar mísseis guiados por calor, recursos considerados essenciais para voos presidenciais em áreas de maior risco. Fotografias da aeronave também mostram que ela não possui alguns dos sensores e dispositivos visíveis nos antigos VC-25A, instalados sob as asas e na cauda.

Embora esses sistemas raramente tenham sido utilizados na história da aviação presidencial americana, especialistas afirmam que eles representam uma camada fundamental de proteção ao presidente e à comitiva que viaja a bordo. A própria Força Aérea reconheceu, quando anunciou que o avião estava pronto para entrar em operação, que a aeronave temporária não recebeu todos os equipamentos previstos para um Air Force One definitivo.

“Não houve qualquer risco em termos de segurança, proteção ou comunicações da missão”, afirmou a corporação em nota divulgada em junho. Ao mesmo tempo, admitiu que algumas capacidades menos utilizadas ficaram de fora para acelerar a entrega da aeronave. A Força Aérea, contudo, se recusou a detalhar quais sistemas foram excluídos.

Pressão de Trump e atrasos na frota definitiva

O Boeing foi doado pela família real do Catar e passou por um processo acelerado de modernização para atender às exigências mínimas de uma aeronave presidencial. O objetivo era oferecer uma solução temporária enquanto a Boeing conclui os dois novos Air Force One encomendados pelo governo americano, cuja entrega acumula anos de atraso e agora é esperada apenas para 2028. Segundo pessoas envolvidas no programa, Trump pressionou repetidamente para que o avião fosse colocado em operação o quanto antes. O presidente também reclamava com frequência da aparência dos antigos jatos presidenciais, que considerava pouco impressionantes para viagens internacionais.

Especialistas, porém, afirmam que uma conversão completa de um Boeing comercial em um Air Force One normalmente leva vários anos. “O tempo não permitiu todas as modificações normais do Air Force One, então faltam alguns recursos de segurança, comunicação e suporte”, afirmou Frank Kendall, ex-secretário da Força Aérea. “Com a situação no Irã, isso pode ser preocupante. Francamente, estou surpreso em ver esse avião sendo usado fora dos EUA”, acrescentou. Andrew Hunter, ex-secretário adjunto da Força Aérea responsável pelo programa durante o governo Joe Biden, também afirmou que uma modernização completa dificilmente seria concluída em apenas um ano.

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Ameaça iraniana e medidas de segurança

As preocupações ganharam ainda mais peso porque Trump continua sendo considerado um dos principais alvos do Irã desde que autorizou, em 2020, o ataque que matou o general Qassim Suleimani. Durante a campanha presidencial de 2024, o Serviço Secreto já havia ampliado a proteção ao republicano após informações de inteligência indicarem possíveis planos iranianos para assassiná-lo, medidas que antecederam, inclusive, a tentativa de atentado sofrida por Trump durante um comício em Butler, na Pensilvânia.

Embora autoridades americanas afirmem que não há informações sobre um plano concreto do Irã para atacar o presidente neste momento, o contexto da viagem elevou o nível de cautela. Nesta semana, o cenário voltou a se agravar após o governo de Israel compartilhar com os Estados Unidos novas informações de inteligência que indicariam um possível plano iraniano para assassinar Trump, segundo o The Wall Street Journal.

Durante o voo de retorno da Turquia ao Reino Unido, realizado no antigo Air Force One, o transponder (equipamento que emite sinais da aeronave) chegou a ser desligado temporariamente, um procedimento normalmente reservado para deslocamentos presidenciais em ambientes considerados de alto risco. Já o Boeing doado pelo Catar seguiu separadamente até a base de Mildenhall, onde Trump voltou a embarcar antes da etapa final da viagem para Washington.

Enquanto a Casa Branca insiste que a aeronave oferece “protocolos de segurança de alto nível”, especialistas avaliam que sua utilização deve permanecer restrita, sobretudo em viagens internacionais ou para regiões consideradas sensíveis, até que os novos Air Force One definitivos entrem em operação.