O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), usou as redes sociais nesta terça-feira (4) para criticar duramente a greve dos funcionários da CPTM, que afeta as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade desde a meia-noite, sem previsão de término. Na avaliação do chefe do Executivo estadual, a paralisação configura uma “instrumentalização política para prejudicar o passageiro e o cidadão de bem”. A declaração foi publicada em meio à escalada do movimento grevista, que reivindica a reestatização das três linhas concedidas à iniciativa privada e a manutenção dos 4.700 empregos dos atuais funcionários da estatal.
Governador acusa sindicato de ignorar propostas e decisão judicial
Em sua manifestação, Tarcísio afirmou que “negociações aconteceram, garantias de manutenção de emprego foram dadas e descartadas pelo sindicato, que não só ignorou a proposta do governo, como também, mais uma vez, ignora a decisão da Justiça do Trabalho”. O governador enfatizou que a gestão estadual permanece aberta ao diálogo, mas não aceitará que a população seja usada como “refém” ou “instrumento de pressão”. “Não é por acaso que determinados eventos ocorram em ano de eleição”, completou, em referência ao pleito municipal.
“A aposta na baderna e na paralisia dos serviços não vai intimidar o governo, que esteve e seguirá aberto ao diálogo. Uma concessão é feita para melhorar os serviços, eliminar problemas de via permanente, trazer trens novos, garantir estações mais acessíveis, eliminar falhas na via aérea de alimentação e nas subestações, estender as linhas até Bonsucesso ou até César de Souza e dar mais confiança ao sistema”, declarou Tarcísio, reforçando os benefícios previstos para a população.
Entenda os motivos da greve e as reivindicações dos trabalhadores
A paralisação foi motivada pela transferência definitiva da operação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade para a empresa privada Trivia Trens, vencedora do leilão realizado em março de 2024. Os empregados da CPTM exigem a reestatização das três linhas, a garantia de todos os postos de trabalho e a aprovação do Projeto de Lei nº 730/2025, de autoria do deputado Guilherme Cortez (PSOL), que prevê a absorção dos funcionários da estatal por órgãos da administração pública estadual. O sindicato da categoria, o STEFZCB, não estabeleceu prazo para o encerramento do movimento.
Segundo o sindicato, apenas 11% dos 4.700 empregados da CPTM foram transferidos para a nova concessionária, o que representa cerca de 230 profissionais. A Trivia Trens, por sua vez, informou que conta com aproximadamente 2.400 colaboradores, dos quais 2.100 atuam diretamente na operação e manutenção das três linhas, sendo que 90% dos profissionais que atuam na frente operacional receberam mais de 1.300 horas de treinamento prático e teórico.
CPTM em reestruturação: plano de demissão voluntária em andamento
Com a concessão, a CPTM, que antes administrava sete linhas na Grande São Paulo, passou a operar apenas a Linha 10-Turquesa. Isso levou a estatal a implementar um plano de demissão voluntária (PDV) para reduzir seu quadro de funcionários, atualmente em 4.700 pessoas. A empresa afirma que os profissionais estão sendo realocados conforme as necessidades do Estado, com transferências para órgãos públicos, adesões ao Programa de Demissão Incentivada (PDI) e adequações temporárias de vínculos.
“A iniciativa visa otimizar a eficiência operacional, alinhar equipes ao cenário de concessões e garantir a sustentabilidade das atividades da companhia”, destacou a CPTM em nota. A estatal também ressaltou que a transição foi planejada para assegurar a continuidade dos serviços com segurança e qualidade, mantendo um contingente altamente qualificado para a operação da Linha 10-Turquesa.
Governo de SP lamenta paralisação e reforça compromissos
Em nota oficial, a CPTM e o governo estadual “lamentaram a decisão dos trabalhadores de manter a paralisação”, mesmo após a reunião realizada na segunda-feira (3), quando foram apresentados “compromissos concretos”. Entre as garantias oferecidas estavam a preservação dos postos de trabalho, a análise de projetos de lei de interesse da categoria, como a absorção por outros órgãos públicos, a discussão sobre a incorporação da Estrada de Ferro Campos do Jordão pela CPTM e a inclusão dos trabalhadores no Iamspe, sistema de saúde dos servidores estaduais.
“A paralisação não contribui para a negociação e seu único efeito será o de prejudicar milhares de trabalhadores, estudantes e passageiros que dependem diariamente do transporte ferroviário. É inaceitável que a categoria use a população como instrumento de pressão política”, declarou a gestão Tarcísio. O sindicato, por outro lado, justificou a greve afirmando que “mesmo após a reunião, não houve garantia formal de manutenção dos empregos”, o que levou a categoria a manter o movimento “como forma de defender os postos de trabalho e o futuro de milhares de famílias”.
Concessão das linhas: histórico e problemas recentes
As linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade foram leiloadas em março de 2024, com a vitória do grupo Comporte Participações, dono da Trivia Trens e da Tic Trens. O contrato prevê investimentos de R$ 14,3 bilhões em melhorias, incluindo novas estações, reformas e redução dos intervalos entre trens. A operação assistida começou em maio de 2024, com transferência gradual da CPTM para a concessionária.
Em 21 de julho, a Trivia Trens assumiu integralmente a operação, mas enfrentou problemas nos primeiros dias, incluindo um incêndio em um vagão da Linha 12-Safira devido a um curto-circuito. Após esses episódios, a Artesp determinou que a CPTM retomasse a operação por 90 dias para que a concessionária realizasse ajustes. Apesar das dificuldades, o governo defende a concessão como forma de modernizar o sistema e melhorar o serviço aos usuários.
Impacto na população e alternativas de transporte
A greve afeta diretamente milhares de passageiros que dependem das linhas 11, 12 e 13 para se deslocar pela Região Metropolitana de São Paulo. Por causa da paralisação, a Prefeitura suspendeu o rodízio de veículos nesta terça-feira, e a gestão estadual montou um plano de contingência com reforço de metrôs, trens privados e ônibus do sistema Paese. Apesar da superlotação, Metrô, ônibus e algumas linhas de trem operam normalmente.
O sindicato afirma que a greve é “a última medida a ser usada pelos trabalhadores”, que seguem unidos em defesa dos empregos e da qualidade do serviço público. A entidade reafirma que permanece aberta ao diálogo e espera que o governo apresente uma proposta concreta para encerrar o movimento. Enquanto isso, a população enfrenta transtornos e longas esperas nas estações, em meio a um impasse que parece longe de uma solução imediata.



