Uma enfermeira do Hospital Regional de Samambaia, no Distrito Federal, revelou à TV Globo que os médicos da unidade frequentemente não conseguem acessar o prontuário das gestantes que dão à luz no local. A profissional, que falou sob condição de anonimato por temer represálias, apontou a falta de comunicação entre os sistemas digitais como a principal causa.
Mortes recentes de parturientes
Nos últimos dias, duas mães morreram no hospital de Samambaia por complicações do parto. Em ambos os casos, as famílias afirmam que as gestantes pediram repetidas vezes por uma cesárea, mas foram forçadas a insistir no parto natural – e a cirurgia só foi iniciada quando o quadro se agravou.
"O que dificulta para o profissional médico, para os enfermeiros é a falta de integração dos formulários. Quando chega uma gestante no hospital, o médico do plantão não sabe onde ela fez o pré-natal, não tem acesso. Mesmo que a pessoa tenha feito na rede pública de saúde, no postinho perto da sua casa, não tem acesso porque os sistemas são diferentes", disse a enfermeira.
Sistemas incomunicáveis
A profissional detalhou que o sistema usado pelo médico da família e pela enfermeira na Unidade Básica de Saúde é o e-SUS, enquanto o hospital utiliza o TrakCare. "E eles não se conversam. Quando a paciente chega no hospital, pode ser que tenha algum tipo de complicação no pré-natal que o médico não tem acesso. E muitas vezes a pessoa, a gestante ou a acompanhante, não sabem explicar isso para o médico", explicou.
Posicionamento do governo
Em nota, a Secretaria de Saúde do DF confirmou que usa sistemas distintos – e que eles não são plenamente integrados. O governo diz, no entanto, que os profissionais de saúde autorizados têm acesso aos dois sistemas e que as grávidas contam com a Caderneta da Gestante, que reúne as informações do pré-natal.
A pasta informou que desenvolve iniciativas para ampliar a interoperabilidade entre os sistemas da rede pública de saúde do Distrito Federal, seguindo as diretrizes do Ministério da Saúde, os padrões da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e os requisitos de segurança da informação.
Contexto e repercussão
As mortes ocorreram em meio a um contexto de sucateamento da saúde pública no DF. Em abril, a governadora Celina Leão cancelou o aniversário de Brasília e destinou R$ 25 milhões à Saúde. Após as mortes, a governadora reconheceu problemas na saúde pública do DF, afirmando: "Precisamos melhorar".



