A Operação Gutenberg, deflagrada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), revelou um esquema de fraudes que ultrapassa R$ 27 milhões na venda de livros didáticos e paradidáticos para prefeituras do estado. De acordo com as investigações, servidores da Secretaria Estadual de Saúde condicionavam a liberação de consultas, exames, cirurgias e internações à compra dos livros comercializados pelo grupo criminoso.
Esquema usava falsa exclusividade para evitar licitações
Segundo o MPMS, a organização criminosa utilizava principalmente a Editora Avante para vender livros e kits pedagógicos às redes municipais de ensino. Para contratar os materiais sem licitação, o grupo apresentava documentos afirmando que possuía exclusividade na comercialização das obras. O Ministério Público, no entanto, afirma que essa exclusividade era falsa. As investigações apontam que diversos livros pertenciam originalmente a outras editoras, como a Galeria das Letras e a Gráfica e Editora Alvorada, podendo ser comprados livremente no mercado.
Na prática, a falsa exclusividade permitia que as prefeituras realizassem a contratação direta da empresa, sem concorrência. Além disso, conforme o MPMS, gestores municipais eram pressionados porque a liberação de procedimentos de saúde pelo Estado estaria condicionada à compra dos materiais.
Livros comercializados incluíam Série Theo e materiais educativos
Entre os materiais identificados pelos investigadores estão coleções voltadas à educação infantil, alfabetização, inclusão, alimentação saudável e prevenção ao uso de drogas. O principal produto comercializado era a Série Theo, composta pelos livros: O Mundo Azul de Theo, O Fantástico Mundo do Capitão Theo, O Fantástico Navio do Capitão Theo e A Viagem de Theo. As obras tratam do transtorno do espectro autista (TEA) e pertenciam originalmente à editora Galeria das Letras, segundo a investigação.
O grupo também comercializava kits pedagógicos sobre cores, formas, letras, números e contrários; a coleção Outras Histórias, sobre culturas afro-brasileiras e indígenas; o projeto Craque na Vida, voltado à prevenção ao uso de drogas, bullying e ética; a coleção Defensores da Vida Saudável, com livros sobre alimentação; a coleção Aprender Fazendo, de apoio à alfabetização; os livros Musicando, sobre musicalização infantil; materiais sobre higiene bucal e combate à dengue; livros como A Menina que Não Queria Comer, Cada Um com Seu Jeito e Tantos Traços; e obras regionais, como Cheiros & Sabores, Mani-oca, Fazendas – Uma Memória Fotográfica e Pantanal: Aves e Cores.
Família Paroschi Jafar entre os principais investigados
Cinco integrantes da família Paroschi Jafar aparecem entre os investigados pelo Ministério Público. São eles: Rossana Paroschi Jafar, empresária ligada à Gráfica Alvorada; Olívia Paroschi Jafar, médica e empresária; Felipe Paroschi Jafar, engenheiro e ex-servidor comissionado da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul); Giovanni Paroschi Jafar, empresário, atualmente foragido; e Rhayane Souza Fanaia, ex-nora de Rossana e ligada à Editora Avante. Segundo o MPMS, o grupo utilizava empresas do setor gráfico para comercializar os livros às prefeituras.
Rossana, Olívia e Felipe estão presos. Rhayane foi presa em Goiás. Giovanni teve a prisão preventiva decretada e é considerado foragido.
Contratos somam mais de R$ 27 milhões
Ao todo, 16 pessoas tiveram mandados de prisão decretados durante a Operação Gutenberg. Segundo o Ministério Público, os contratos investigados ultrapassam R$ 27 milhões. A suspeita é de que os recursos públicos fossem distribuídos entre integrantes da organização, servidores públicos e empresas para ocultar a origem do dinheiro. As investigações também apontam que o grupo continuava atuando e mantinha contratos ativos em diversos municípios de Mato Grosso do Sul.
As defesas de alguns investigados foram procuradas. A defesa de Francisco Anizio dos Santos, Ed Carlo Britto Burgatt, Gabriel Taquino de Paula, Matheus Oliveira Peixoto e Joatan Gomes Peixoto informou que ainda não teve acesso aos autos do processo. A defesa de Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior afirmou que ainda não teve acesso à íntegra do processo e que só irá se manifestar após conhecer o conteúdo dos autos. Já a defesa de Heyder Bartz informou que ainda não teve acesso formal à decisão que determinou sua prisão, mas afirmou que o investigado se colocou à disposição da Justiça para colaborar com as investigações. O g1 não conseguiu localizar as defesas de Rossana Paroschi Jafar, Olívia Paroschi Jafar, Felipe Paroschi Jafar, Giovanni Paroschi Jafar e Jéssyca Burgatt. A reportagem também aguarda retorno das defesas de Paulo Rogério de Melo e Douglas Henrique de Melo.



