Alerta de temporais no RS com risco de tornados e chuva de 150 mm
RS em alerta: temporais com ventos e granizo até sábado

A Defesa Civil do Rio Grande do Sul emitiu um alerta para temporais no Estado a partir desta quinta-feira (16), válido até o sábado (18). O período mais crítico, segundo o órgão, ocorre entre a noite de sexta-feira e a manhã do sábado. Há risco de temporais com rajadas de vento e queda de granizo nas regiões Oeste, Campanha e Sul do Estado, além da possibilidade de tornados. Os acumulados de chuva podem chegar a 150 mm, com parte da precipitação concentrada em curto espaço de tempo, e as rajadas de vento podem variar entre 60 e 100 km/h.

Alertas do Inmet e do Cemaden

O alerta da Defesa Civil se soma ao do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), que publicou um aviso de perigo potencial para tempestades válido para quinta-feira, abrangendo o oeste e o sul gaúchos. As condições meteorológicas devem piorar entre sexta-feira e sábado, levando o Inmet a emitir outro aviso de perigo para tempestades, cobrindo praticamente todo o Estado, incluindo a Região Metropolitana de Porto Alegre. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) também prevê fortes chuvas para a região Sul. O coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, Marcelo Seluchi, afirmou à BBC News Brasil: "A partir de quinta-feira vai passar uma frente fria e essa frente vai ficar estacionária até provavelmente segunda-feira. Então vão ser vários dias consecutivos de chuva. Os volumes totais são relativamente importantes."

Jato de Baixos Níveis e rios voadores

Um dos fatores que contribuirá para as tempestades é o Jato de Baixos Níveis (JBN), fenômeno conhecido como "rios atmosféricos" ou "rios voadores". O JBN é uma corrente intensa de ventos que atua no interior da América do Sul, entre 1 e 3 km de altitude, transportando ar quente e úmido da Amazônia em direção ao Centro-Sul do continente. Segundo o Inmet, "quando o JBN interage com sistemas frontais provenientes do sul do continente, ocorre um aumento da convergência de umidade e da instabilidade atmosférica, favorecendo a ocorrência de tempestades severas". No episódio previsto, o JBN deve atuar de forma intensa sobre a Região Sul. Contudo, Seluchi ressalta que, no inverno, o transporte de umidade da Amazônia para o Sul é menor: "Estamos numa época mais fria, uma época bem mais seca. Então esse transporte nesta época não é tão importante, embora vai ter sim uma certa influência."

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Chile também será afetado

O Chile também deve ser atingido por rios voadores no fim de semana. A empresa MetSul Meteorologia afirma que um poderoso rio atmosférico está avançando pelo Oceano Pacífico em direção à América do Sul, com categoria 4 e, em alguns momentos, 5 — o nível máximo da escala. O sistema transporta enormes volumes de umidade das regiões tropicais do Pacífico até a costa Oeste da América do Sul, trazendo chuva extrema, tempestades, ventos intensos e fortes nevadas na Cordilheira dos Andes. As regiões mais afetadas devem ser Coquimbo, Valparaíso, Metropolitana, O'Higgins, Maule, Ñuble e Biobío.

O que são rios atmosféricos

Os rios atmosféricos são colunas longas e largas de vapor d'água que emergem dos trópicos e se movem em direção aos polos, carregando cerca de 90% do vapor d'água total que se move pelas latitudes médias da Terra. Cientistas atribuem tempestades de grande intensidade a esses fenômenos, que estão se tornando mais intensos, longos, largos e destrutivos. Segundo a Nasa, eles colocam centenas de milhões de pessoas sob risco de inundação em todo o mundo. Nem todos causam danos; alguns são vitais para a regulação de chuvas. Na América do Sul, rios voadores formados pela umidade da Floresta Amazônica causam chuvas a mais de 3 mil km de distância, beneficiando a produção agrícola no sul do Brasil, Uruguai, Paraguai e norte da Argentina. O desmatamento da Amazônia é visto como uma ameaça a esse sistema.

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Características e impactos das mudanças climáticas

Um rio atmosférico médio tem cerca de 2 mil km de comprimento, 500 km de largura e quase 3 km de profundidade, embora estejam ficando mais largos e longos (alguns com mais de 5 mil km). Eles são invisíveis ao olho humano, mas podem ser vistos por satélites usando frequências infravermelhas e de micro-ondas, segundo Brian Kahn, pesquisador atmosférico do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa. Rios atmosféricos grandes e fortes podem mover umidade a uma taxa de descarga 15 vezes maior que a do rio Mississippi e cerca de duas vezes o fluxo regular do Amazonas. O aquecimento global está criando mais vapor de água, tornando esses rios mais intensos e capazes de despejar grandes quantidades de água em curto espaço de tempo, desencadeando inundações e deslizamentos catastróficos. Estudos mostram que o vapor de água atmosférico global aumentou em até 20% desde a década de 1960. Um estudo da Universidade de Potsdam descobriu que as condições de rios atmosféricos na América do Sul tropical, Norte da África, Oriente Médio e Sudeste Asiático estão durando mais, o que pode aumentar a quantidade de chuva com efeitos prejudiciais. Em abril de 2023, no Oriente Médio, simulações da Universidade Khalifa revelaram a presença de rios atmosféricos que geraram forte precipitação.

Rios voadores na Amazônia

Na região amazônica, a umidade geralmente se origina na Floresta Amazônica e forma rios atmosféricos em latitudes mais altas. Ao se moverem em direção aos Andes, são redirecionados para o centro-oeste, sudeste e sul do Brasil, além do norte da Argentina, Uruguai, Paraguai, Colômbia, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e Suriname. Deniz Bozkurt, meteorologista da Universidade de Valparaíso, explica que o sistema também é influenciado pelo cinturão de chuva equatorial com ventos alísios e a Cordilheira dos Andes. "Esses elementos juntos podem guiar a umidade, fazendo-a viajar para o sul, levando a chuvas pesadas e inundações em outras regiões", diz ele. "Quando essas condições se alinham com condições favoráveis, como a formação de frentes frias em latitudes ao sul, podemos observar rios atmosféricos 'típicos' transportando umidade da Amazônia para o sudeste e em direção ao Atlântico, causando chuvas significativas." Esses rios podem transportar grandes quantidades de água doce para outras regiões da América do Sul e latitudes médias, chegando até as costas da Antártida e da África do Sul. Em circunstâncias normais, eles desempenham papel fundamental no equilíbrio de temperaturas e umidade, prevenindo a desertificação e sustentando a biodiversidade. No entanto, o desmatamento reduz a quantidade de vapor d'água que forma os rios atmosféricos, causando efeitos climáticos negativos localmente e em outras partes da América do Sul, alertam os especialistas.