A Polícia Civil de Roraima desarticulou um esquema internacional de tráfico de armas pesadas que abastecia o Comando Vermelho (CV), em uma operação denominada 'Rota do Norte', deflagrada nesta terça-feira (16). A investigação revelou que a facção venezuelana Tren de Aragua é a responsável por administrar a rota que traz fuzis, metralhadoras calibre .50 e lança-granadas dos Estados Unidos para o Brasil, utilizando Roraima como porta de entrada. As armas eram destinadas ao CV no Rio de Janeiro e no Amazonas.
Investigação e apreensões
O ponto de partida da investigação foi a apreensão de fuzis no município de Mucajaí (RR), em novembro de 2024. A análise das armas permitiu à polícia mapear o destino final dos itens. 'Esses fuzis que foram apreendidos no início do ano passado em específico são americanos. Nós não sabemos se elas foram montadas na Colômbia e, em seguida, internalizadas na Venezuela, mas a gente sabe a origem delas', detalhou o delegado Wesley Oliveira. 'Há um conjunto probatório robusto de que essas armas eram enviadas para o estado do Amazonas e, em um segundo momento, para o estado do Rio de Janeiro. Armas oriundas dos Estados Unidos, da Colômbia e da Venezuela', acrescentou.
Simbiose entre as facções
A aliança entre o Tren de Aragua e o Comando Vermelho é movida pela necessidade de recursos financeiros dos venezuelanos e pelo alto poder de compra da facção brasileira. O delegado Hugo Cardias, titular da Delegacia de Repressão às Organizações Criminosas (Draco), classificou o elo como 'vantajoso'. 'Há uma simbiose. A facção venezuelana tem um produto que o CV precisa e o CV acaba tendo o recurso que a facção precisa', explicou.
Além do tráfico de armas, a operação também mirou a lavagem de dinheiro. Segundo a polícia, o Tren de Aragua tem agido cada vez mais como uma empresa para lavar os milhões que recebe do Comando Vermelho. 'Assim como as empresas, as facções criminosas têm se atualizado com relação às transações financeiras e usam até criptomoedas. Já é um outro lado de investigação que nós temos que tomar a partir de agora. Um lado mais especializado', destacou o delegado da Draco.
Operação 'Rota do Norte'
Na operação, foram expedidos 25 mandados de prisão preventiva e mais de 30 de busca e apreensão contra investigados por envolvimento com tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e comércio ilegal de armas. Dos mandados de prisão, 16 foram expedidos para Roraima. A polícia prendeu 11 alvos em todo o país, sendo quatro deles em Roraima. No balanço nacional, as equipes apreenderam 11 veículos, incluindo carros de luxo como um Porsche no Rio de Janeiro e um Land Rover em São Paulo. Apenas no estado roraimense, foram confiscados quatro carros (uma S10, um Creta, um HRV e um HB20) e porções de ecstasy. Em espécie, a operação somou mais de R$ 76,7 mil e US$ 48 mil (dólares). Desse montante, os alvos de Roraima guardavam mais de R$ 17 mil e todas as cédulas de dólares. A polícia estima que o dinheiro recolhido possa chegar a quase R$ 400 mil após conversões.
Os alvos da polícia em Roraima atuam no nível intermediário da estrutura financeira da facção. Já no braço responsável pelas ações violentas, os principais líderes estão no estado.
Contexto do Tren de Aragua
Fundada em uma prisão na Venezuela, a Tren de Aragua atua em países como Colômbia, Bolívia, Peru e Chile com crimes que incluem sequestro, extorsão, mineração ilegal e tráfico de drogas e de pessoas. No ano passado, os Estados Unidos classificaram o grupo como organização terrorista estrangeira, a mesma designação aplicada ao PCC e ao Comando Vermelho.



