A cidade do Rio de Janeiro registrou 207 alterações de itinerários de ônibus nos quatro primeiros meses de 2026 em decorrência da violência urbana. Motoristas e passageiros convivem com uma rotina de medo ao utilizar o transporte público. O levantamento foi realizado pelo RJ1 com base em dados do Rio Ônibus, sindicato que representa as empresas de ônibus da capital fluminense. O número representa um crescimento de 22% em comparação ao mesmo período do ano anterior.
Relatos de Passageiros
A comerciante Daniele de Oliveira compartilhou sua experiência traumática: "Já fui assaltada dentro do 790. Levaram meu celular, com a ameaça de uma arma. Ainda deram um pontapé no motorista antes de descer". A confeiteira Karina Dias também descreveu a situação: "São ruas fechadas, ônibus que não conseguem parar, muitas vezes o motorista precisa deixar a chave na ignição e sair porque eles mandam todo mundo sair. A população é sempre impactada de alguma forma".
Mês de Março Lidera Desvios
O mês de março de 2026 foi o que apresentou o maior número de desvios de itinerário, com 103 ocorrências – um aumento de quase 222% em relação a março de 2025. Esse crescimento expressivo chama a atenção para a escalada da violência em determinadas regiões da cidade.
Planejamento Operacional
De acordo com o Rio Ônibus, o aumento no número de desvios reflete um melhor planejamento operacional. Em muitos casos, os trajetos são alterados de forma preventiva, assim que a polícia informa sobre operações ou tiroteios em áreas específicas. Paulo Valente, diretor de comunicação do Rio Ônibus, explicou: "A gente consegue agir preventivamente, desviando as linhas do itinerário antes que tenha ocorrência de ônibus utilizados como barricadas. Então, aumentou o número de linhas desviadas, impactadas, mas na verdade houve uma redução de ônibus usados como barricadas".
Ação da Polícia Militar
A Polícia Militar informou que mantém protocolos de comunicação com as empresas de ônibus e com o Rio Ônibus para alinhamento prévio de ações planejadas. A corporação afirmou que, quando algo desestabiliza o cenário urbano, atua de imediato nos pontos de instabilidade para resolver a situação. Além disso, a PM destacou que os roubos a coletivos caíram 49% nos primeiros quatro meses de 2026 no estado.
Motorista Relata Medo e Trauma
Um motorista que trabalhou por anos na Zona Norte do Rio, em linhas que passam por dentro ou nas proximidades de comunidades, contou que precisou de apoio psicológico após vivenciar episódios de violência. Ele acabou sendo transferido para outra linha. "O trauma psicológico ficou. É imprevisível. Não tem quando o mar está calminho e, de repente, vem uma onda? É assim. Não tem hora para acontecer. Pode acontecer a qualquer momento", disse o motorista, que preferiu não se identificar por segurança.
Linhas com Mais Desvios
O levantamento aponta as linhas que mais sofreram alterações em 2026, a maioria na Zona Oeste da cidade:
- 737 (Santíssimo x Cascadura): 11 ocorrências
- 926 (Senador Camará x Penha): 10 ocorrências
- 731 (Campo Grande x Marechal Hermes): 9 ocorrências
- SV790 (Campo Grande x Cascadura): 9 ocorrências
Passageiros que dependem do transporte público lamentam os frequentes transtornos e a insegurança. "A gente sai de casa com medo. Dou graças a Deus quando consigo voltar, abrir o portão e encontrar minha família bem", disse um passageiro.



