Relatório final da Voepass aponta falhas da empresa, pilotos e Anac
Relatório final Voepass: falhas da empresa, pilotos e Anac

O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre a queda do avião da Voepass, em Vinhedo (SP), foi apresentado nesta quinta-feira (23) e concluiu que falhas da Voepass, dos pilotos e da fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) contribuíram para o acidente. Ao todo, 39 itens foram listados como conclusão da investigação.

Condições de gelo severo e falha no sistema de degelo

O avião encontrou condições meteorológicas de formação de gelo severo durante o voo, ainda na subida, que persistiram por todo o trajeto. Uma falha técnica afetou o sistema responsável por remover o gelo da asa direita. O sistema de monitoramento da aeronave emitiu pelo menos oito avisos de velocidade baixa e alertas de performance degradada, mas os pilotos não executaram os procedimentos de emergência previstos.

Falta de atenção na cabine e erros na recuperação

Conversas entre os pilotos sobre assuntos pessoais, não relacionadas ao voo, tiraram o foco do monitoramento do gelo e dos instrumentos. Quando a aeronave perdeu a sustentação e começou a cair (estol), o copiloto agiu de forma contrária aos manuais, puxando o manche em vez de empurrá-lo, o que agravou a situação e impediu a recuperação do controle.

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Problemas de manutenção e cultura de normalização de desvios

O avião ATR 72-500 foi liberado para voar com uma falha técnica no sistema de degelo que não foi registrada em diário de bordo, impedindo os reparos. A Voepass tinha cultura de "normalização de desvios", em que pilotos e mecânicos não relatavam as panes em diário de bordo para que os aviões pudessem voar no dia seguinte.

Fiscalização insuficiente da Anac

O relatório aponta que a Anac não foi capaz de impedir, por meio das fiscalizações, o acidente aéreo. Auditorias e inspeções realizadas pela Anac antes do acidente revelaram "diversas não conformidades" relacionadas à manutenção das aeronaves da Voepass, mas essas constatações "não foram capazes de auxiliar nas tomadas de decisões estratégicas necessárias à mitigação e ao controle dos riscos".

Detalhes da queda e recomendações

O avião entrou em parafuso chato, girando sobre o próprio eixo enquanto caía verticalmente, completando cinco voltas antes de colidir com o solo. A velocidade de descida foi de 14 mil pés por minuto, equivalente a uma queda de 4 quilômetros a cada minuto. Quatro recomendações foram direcionadas à European Union Aviation Safety Agency (EASA) para serem repassadas à ATR, incluindo mudanças nos alertas de desempenho e regras para curvas com gelo. À Anac, foram feitas recomendações como revisão de checklists, melhoria na comunicação e aprimoramento da fiscalização.

O tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador encarregado pelo Cenipa, afirmou que a aeronave não poderia ter decolado no horário com previsão de chuva devido a uma falha no sistema de limpador de para-brisa. "Não poderia ter sido despachado a aeronave nesse horário em virtude da falha no limpador de para-brisa", disse Fróes. A Anac informou que analisará as conclusões do Cenipa em até 120 dias.

O voo 2283 da Voepass caiu em 9 de agosto de 2024 em Vinhedo, durante o trajeto entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP), matando 62 pessoas. Foi o acidente aéreo mais grave do Brasil desde o desastre com o voo da TAM em 2007.

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