Ana Clara Antero de Oliveira, 21 anos, vítima de uma tentativa de feminicídio que resultou na decepação de uma mão e na semimutilação da outra, recebeu alta hospitalar há cerca de um mês e agora enfrenta uma rotina intensa de fisioterapia e reabilitação. O crime ocorreu em 1º de maio em Quixeramobim, interior do Ceará. A jovem ficou internada no Hospital Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza, até 29 de maio, passando por cirurgias de reimplante das mãos e tratando cortes profundos na perna e no cotovelo.
Processo de recuperação e desafios diários
De segunda a sexta-feira, Ana Clara realiza sessões de fisioterapia focadas em recuperar os movimentos das mãos. Os exercícios visam permitir que ela mova os punhos, estique os dedos e abra as mãos sem ajuda. Além disso, recebe massagens nos braços e utiliza aparelhos que estimulam pequenos choques nas mãos. “Eu sinto o choque, isso é clinicamente maravilhoso. Porque indica que os nervos já estão vindo, eles estão crescendo. Disseram que eu vou precisar de cinco meses para os nervos se reconstruírem até as pontas dos dedos”, afirmou.
Na última segunda-feira (22), ela iniciou fisioterapia na perna esquerda, que teve um tendão cortado e reconstruído. Atualmente, enfrenta dificuldades para caminhar. O trabalho visa recuperar o movimento do pé para cima e de dentro para fora. Apesar da lentidão e da dor, especialmente nas mãos, Ana Clara considera que está se recuperando bem. “É um processo lento. Hoje mesmo eu chorei porque dói bastante, dói muito porque força. Mas quando eu saí da fisioterapia, essa minha mão já estava um pouco mais aberta. Então a gente vê que é um processo bem longo, que não adianta se desesperar. [...] Não é fácil, mas todos os dias Deus tem me dado muita força pra eu não desistir”, relatou.
Nova dinâmica familiar e dificuldades financeiras
Ana Clara mora atualmente com a mãe, que é surda, e o padrasto, José Airton Firmino, que perdeu o braço há mais de 40 anos em um acidente. A comunicação com a mãe, antes feita por gestos e sinais próprios, tornou-se difícil sem o controle das mãos. “O meu padrasto escuta e fala, mas só tem uma mão. Para ele me ajudar, é um pouco complicado. Já a minha mãe tem as duas mãos, só que ela é surda. Às vezes, quando ele passa [instruções] para a minha mãe, ela não entende. Ele não consegue se comunicar tão bem com ela. Então é um processo complicado, mas é o jeito que a gente tem”, explicou.
A família reside no bairro Montese, em uma casa cedida por amigos do padrasto. Ana Clara conta com uma vaquinha virtual para custear alimentação, transporte e auxiliar o casal anfitrião. A estimativa é que ela precise permanecer em Fortaleza por cerca de um ano para reabilitação. A situação financeira é delicada, pois a fisioterapia é privada, indicada pelo cirurgião, e o padrasto deixou o emprego em Quixeramobim para acompanhá-la.
Emoções conflitantes ao retornar à cidade do crime
Desde a alta, Ana Clara visitou Quixeramobim três vezes. Nessas ocasiões, reencontrou amigos e familiares, e surpreendeu-se com visitas de pessoas comovidas com o caso. Em um evento, foi convidada a contar sua história ao lado do delegado William Lopes, que conduziu a investigação. A experiência trouxe sentimentos mistos: alegria pelo acolhimento, mas também crises de pânico. “Na segunda semana que eu fui, realmente começou a dar aquela crise de pânico antes de eu chegar na cidade… Aquela vontade de sair do carro e correr, uma sensação ruim. Porque você relembra tudo o que aconteceu. [...] Tudo bem que a cidade não tem culpa, mas é uma cidade onde eu vivia e onde tudo aconteceu. Então, eu tenho um pouco de trauma”, compartilhou.
Ela não pretende morar novamente no município após o tratamento, mas planeja manter visitas pontuais e reconstruir a vida em outro lugar.
Fé, sonhos e planos futuros
Nascida em ambiente católico, Ana Clara começou a frequentar cultos evangélicos após a alta. Inicialmente resistida pela família, a nova fé foi aceita e lhe proporciona amparo espiritual e emocional. Ela também se dedica a reconhecer seus sonhos fora de um relacionamento amoroso, após perceber que se anulou no namoro com Ronivaldo, abandonando estudos e autocuidado. “Eu não penso em relacionamento. No momento, eu tenho traumas. Até de conversar com outra pessoa. Às vezes, um homem vem dar um abraço, dar aquela demonstração de estar ali me apoiando… Eu fico com receio principalmente com quem eu não conheço. Porque se pessoas que eu conhecia fizeram isso comigo, imagine quem eu não conheço”, afirmou.
Entre os planos futuros estão empreender, voltar a estudar e continuar contando sua história para conscientizar sobre violência contra a mulher. Ela considera cursar Direito e seguir carreira na polícia, embora tema o teste de aptidão física devido às mãos. “Eu tenho medo porque, na polícia militar, o teste de aptidão física é um pouco complicado. Você tem a barra, [tem que] segurar com as duas mãos e sustentar o seu peso. Eu não sei como vão estar os movimentos das minhas mãos, se vai voltar como antes, se eu vou conseguir ter força que nem antes”, contou.
Ana Clara ainda passará por duas cirurgias adicionais no IJF. O g1 solicitou detalhes ao hospital, mas não obteve retorno. Enquanto isso, ela se emociona com as mensagens de apoio nas redes sociais, onde amigos ajudam a postar atualizações. “Muitas coisas estão mudando. E tem muita coisa que eu quero mudar. A Ana Clara antiga morreu, e agora nasce uma nova Ana Clara, com visão de futuro”, concluiu.



