Uma professora de 57 anos morreu em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, após ter o pescoço cortado por uma linha chilena enquanto voltava do trabalho de moto. O caso ocorreu no dia 30 de junho, no Residencial Minas Gerais, e foi esclarecido pela Polícia Civil nesta quinta-feira (30). Dois jovens, de 17 e 18 anos, foram identificados como responsáveis pela pipa que causou o ferimento fatal. Eles participavam de uma disputa conhecida como “laçada” e, ao puxar a linha, perceberam que algo estava mais pesado — momento em que a vítima foi atingida.
Dinâmica do crime e investigação
De acordo com a delegada Francielle Drummond, a professora Cláudia Morais da Silva passava de moto pelas imediações de um campo de futebol, onde havia intenso fluxo de veículos e pedestres. Uma linha tensionada e com grande quantidade de material cortante atingiu a região cervical, causando um esgorjamento. O laudo de necropsia apontou choque hipovolêmico hemorrágico como causa da morte.
A Polícia Civil realizou diligências e apreendeu uma carretilha em um lote vago próximo ao local. “A perícia informou que era compatível com a linha utilizada na morte da vítima”, detalhou a delegada. Após oitivas, os dois suspeitos confessaram a dinâmica: encontraram a linha chilena na rua e a emendaram à linha da pipa. Eles afirmaram que perderam o controle da pipa durante a laçada e, ao puxar a carretilha, sentiram peso extra — provavelmente quando a professora foi atingida.
Indiciamento e penalidades
Os rapazes foram indiciados por homicídio na modalidade de dolo eventual. O maior de idade responderá por homicídio doloso, com pena de seis a 20 anos de prisão; o adolescente, por ato infracional análogo a homicídio, podendo ser internado por até três anos. Apesar do indiciamento, ambos permanecem em liberdade por não preencherem requisitos legais para prisão ou apreensão, e colaboraram com as investigações.
“A Polícia Civil entendeu que eles praticaram homicídio com dolo eventual, primeiro porque usavam um artefato perigoso e proibido, a linha chilena, em local de grande fluxo”, explicou a delegada. “O simples uso de linha chilena ou cerol já caracteriza crime de perigo para a vida ou saúde de outrem.”
Em Minas Gerais, a Lei Estadual nº 23.515, de 2019, proíbe a comercialização e o uso de linhas cortantes em pipas. Em Montes Claros, a Lei Municipal nº 5.289, de 2020, também proíbe empinar pipas em áreas urbanas, permitindo apenas em fazendas, sítios ou clubes, com distância segura da rede elétrica e sem linhas cortantes.
Reação da comunidade escolar
Cláudia trabalhava no Cemei Rosita Aquino, onde era muito querida. O secretário municipal de Educação, Charles Gutemberg, lamentou: “É um dia triste, a secretaria de Educação, a Prefeitura e todo o município estamos enlutados com essa perda trágica dessa servidora dedicada com seus alunos, com seu território e com a comunidade escolar.” Helen Patrícia Vieira, gerente de educação integral, acrescentou: “Nós todos sentimos muito essa lastimável perda de uma profissional comprometida, há anos dedicada às nossas crianças, muito querida pela comunidade escolar.”
Alerta sobre os perigos das linhas cortantes
O diretor técnico do Samu, Marcelo Fagundes, explicou que a linha com cerol funciona como uma lâmina. “Ontem, tivemos a infelicidade de atender a uma mulher que foi vítima de um esgorjamento, provocado por linha de pipa, que culminou com o falecimento dela no local da queda.” A professora também teve um ferimento na mão, provavelmente ao tentar se defender.
Fagundes alertou: “Para aqueles que às vezes não entendem bem, a linha de pipa costuma fazer um obstáculo invisível para quem transita, e as maiores vítimas são usuários de motocicletas, bicicletas, patinetes. A velocidade com que a pessoa vem, somada à linha, faz um mecanismo cortante de lesão na superfície corporal. Muitas vezes, se atingir partes nobres do corpo, pode ser fatal.”
O caso reforça a necessidade de fiscalização e conscientização sobre os riscos do uso de linhas cortantes, que já causaram mortes e ferimentos graves em todo o Brasil.



