Preocupado com a segurança dos fiéis, o padre José Romão instalou uma torre de monitoramento na Paróquia de Nossa Senhora da Saudade, em Porto Seguro (BA). O tradicional destino turístico está entre as dez cidades mais violentas do Brasil, segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira, 23.
A empresa de segurança que instalou a torre, em pouco mais de dois anos, espalhou 543 câmeras de vigilância no município de 182 mil habitantes. “O equipamento chama muito a atenção e inibe a ação de pessoas mal intencionadas”, afirma o religioso.
Taxa de homicídios muito acima da média nacional
Porto Seguro registrou uma taxa de 71,2 mortes violentas para cada cem mil habitantes em 2025, bem acima da média do País (19,1). No ano anterior, o local não estava no top 10 da violência nacional. Por trás disso, está a disputa na região entre o Comando Vermelho (CV), de abrangência nacional, e a facção Mercado do Povo Atitude (MPA), além de confrontos sangrentos contra a polícia.
O governo da Bahia afirma que o policiamento orientado pela inteligência fechou o cerco contra as facções nos últimos anos, reduzindo as mortes violentas. “Há hoje uma captura do litoral nordestino por esses grupos criminosos”, diz Samira Bueno, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Eunápolis também aparece no ranking
Eunápolis, a 60 quilômetros de Porto Seguro, aparece no segundo lugar do top 10 de violência, atrás apenas de Maranguape (CE). Na lista de facções que atuam no sul baiano, estão o MPA e o Primeiro Comando Eunápolis (PCE), que surgiram localmente, o Bonde do Maluco (BDM), uma organização baiana, e o Comando Vermelho (CV).
Pesquisas mostram que o sobe-desce de homicídios, nas últimas décadas, esteve ligado a dinâmicas das facções. Quando as disputas desaceleram e uma das organizações assume o controle territorial, o número de assassinatos tende a cair, mas a população vive uma rotina de medo sob o crime organizado. “Aparece Porto Seguro porque essa é a cidade grande e litorânea da região. Mas toda a região de Caraíva também está inserida nesse contexto”, acrescenta Samira.
Caraíva: paraíso turístico tomado pelo crime
Caraíva é um vilarejo praiano que se tornou paraíso dos turistas pelas praias largas e enfeitadas de coqueiros. Há uma década e meia, o distrito que hoje tem cerca de 13 mil habitantes, não tinha nem luz elétrica em todas as casas. Com os turistas, chegaram também as festas e o consumo de drogas, atraindo as facções criminosas.
Em maio do ano passado, as polícias civil e militar realizaram uma operação no distrito de Caraíva para prender um suposto chefe da facção MPA na região. A PM anunciou que a operação tinha sido um sucesso, com a morte do traficante e de um segundo suspeito. Após a operação policial, comerciantes do distrito foram obrigados a atender um toque de recolher dado por criminosos e fechar seus estabelecimentos.
Houve também protestos na região pela morte do guia turístico Victor Cerqueira, de 28 anos, conhecido como Vitinho. A polícia disse que ele resistiu à prisão, mas testemunhas apontaram que o guia trabalhava no momento da abordagem. A investigação apontou que tanto Vitinho quanto o traficante foram mortos após terem sido rendidos. No caso do guia, a apuração concluiu que ele não tinha qualquer relação com o traficante e foi confundido com outro suspeito.
Policiais denunciados por homicídios
O Ministério Público da Bahia denunciou seis policiais – quatro militares e dois civis – por homicídios qualificados. A Justiça acatou a denúncia e determinou o afastamento cautelar dos seis policiais por 180 dias. Eles não tiveram os nomes divulgados, o que impossibilitou contato com as defesas.
Bahia no foco da criminalidade
Atrás apenas do Amapá, a Bahia é o Estado com a maior taxa de letalidade policial no Brasil, também segundo o Anuário da Segurança. Entre as mortes violentas de Porto Seguro, quase a metade (45%) teve agentes das forças de segurança como responsáveis. O aumento das mortes pela polícia, dizem os especialistas, não necessariamente torna mais eficiente o combate às facções e pode levar a confrontos mais sangrentos, com riscos para os próprios agentes e para moradores de comunidades dominadas pelo tráfico.
No último dia 18, uma influenciadora digital de 30 anos e o companheiro dela de 18 foram encontrados mortos em uma estrada vicinal de Porto Seguro, onde o casal morava. Ulissias Cardial e Vinicius Carvalho trabalhavam com eventos. Os corpos tinham marcas de projéteis. As investigações apontam que o crime pode ter ligação com uma organização criminosa ligada ao tráfico de drogas que atua na região.
Impacto na economia local
Secretário municipal de Comunicação de Porto Seguro, Cézar Aguiar vê risco de prejuízo à economia local, especialmente o turismo, com a divulgação dos dados criminais. “Enfim, sobreviveremos a essa mídia negativa”, diz. O garçom Leonardo Vieira, que trabalha em um restaurante na Praça dos Cajueiros, afirma ao Estadão que Porto Seguro deixou de ser um lugar pacato. “Os comerciantes estão um pouco agitados, porque houve uma série de roubos com arrombamentos, inclusive durante o dia. São quase sempre as mesmas pessoas de uma gangue, mas a polícia pega um, pega outro e não resolve.” Ele mesmo foi vítima de ladrões: em junho, a bicicleta que usava para ir ao trabalho foi furtada no estacionamento do restaurante.
Posição estratégica para o tráfico
Samira Bueno afirma que nessas cidades litorâneas, há por um lado o varejo de drogas – Caraíva e outras são um ponto importante para o varejo – mas os municípios maiores, como Cabo de Santo Agostinho (PE) e Porto Seguro, despontam também por terem uma posição estratégica, pensando na dinâmica do tráfico. “Se não é o tráfico doméstico (o Brasil é o segundo maior consumidor de cocaína do mundo), é o transnacional”, diz. Em Cabo de Santo Agostinho (PE), que também está no top 10 nacional da violência, o Porto de Suape teve várias operações da Polícia Federal para apreensão de drogas, enquanto Porto Seguro tem acesso direto ao Porto de Ilhéus. “Nas dez cidades mais violentas, o que elas têm em comum? Acesso privilegiado a alguma rota direta para alguma BR ou para alguma rodovia que seja estratégica para o escoamento da droga”, continua a pesquisadora.
Governo da Bahia destaca ações de segurança
A Secretaria da Segurança da Bahia afirma que, com mais de 500 operações deflagradas pelas forças policiais, os assassinatos apresentaram diminuição de 20% no 1º semestre deste ano. Houve também, segundo a pasta, aumento nas prisões (10%) e nas apreensões de armas de fogo (5%).
Na região de Porto Seguro e Eunápolis, a secretaria destaca as criações do Comando de Policiamento da Região Extremo Sul da PM, da Diretoria Regional da Polícia Civil, além de uma Base de Inteligência que integra Forças Estaduais e Federais. Salienta também o investimento de R$ 1,3 bilhão em estruturas, viaturas, armamentos e equipamentos de inteligência, além da contratação de 11 mil novos policiais, peritos e bombeiros.



