O caso do piloto Henrique Donizeti Ferri, de 32 anos, preso após realizar um pouso de emergência com um monomotor carregado de cocaína em Itarumã, oeste de Goiás, revela uma estrutura logística sofisticada de tráfico interestadual de drogas. A aeronave, que transportava 342 kg de cocaína, apresentou pane mecânica durante o voo do Mato Grosso para Frutal (MG), forçando o pouso em área rural.
Pouso forçado e destruição de provas
De acordo com a polícia, após o pouso, Henrique ordenou que caseiros de uma fazenda descarregassem e escondessem a droga na mata. Quando os policiais chegaram, encontraram a cocaína em sacolas. O piloto então ateou fogo ao monomotor para destruir vestígios. Um vídeo da Polícia Militar mostra um galão de combustível ao lado da aeronave destruída.
O juiz Gabriel Carneiro Santos Rodrigues, da Vara de Corumbaíba, destacou na audiência de custódia que o incêndio suprimiu "marcas de identificação, registros de bordo, aviônicos e todo o acervo de vestígios que a perícia poderia extrair".
Antecedentes e contratação
Apesar de não possuir antecedentes criminais, Henrique não era um traficante ocasional. O coronel Heber Souza Bastos, do 5° Batalhão Rodoviário da PM, que participou da operação, afirmou ao g1 que o próprio piloto confessou ter sido contratado para três viagens, recebendo R$ 70 mil por cada uma. "Ele já tinha efetuado outras duas viagens. Essa era a terceira", disse o coronel.
O juiz Gabriel ressaltou em sua decisão que anotações de diversas pistas de pouso encontradas indicam "utilização de rotas já estruturadas para uso reiterado de transporte de entorpecentes". Para o magistrado, "os autos não retratam traficante ocasional, surpreendido em conduta isolada e episódica, mas sim a existência de elo técnico especializado de uma estrutura permanente".
Sofisticação logística e organização criminosa
O juiz apontou diversos elementos que demonstram "sofisticação logística": a aeronave, rotas previamente cartografadas, pistas de pouso alternativas com coordenadas geográficas, referências de relevo, telefone satelital para comunicação em áreas sem cobertura e rede terrestre de apoio mobilizável em horas. Com base nisso, concluiu que Henrique integra "organização criminosa destinada ao tráfico interestadual de drogas". Determinou ainda a quebra do sigilo telemático e extração de dados dos celulares e do telefone satelital apreendidos.
Tentativa de fuga e prisão
Henrique foi capturado na madrugada seguinte ao pouso, após horas fugindo pela mata. A polícia montou cerco e localizou um Ford Ka com o pai, a esposa e um amigo do piloto às margens da GO-206. Após versões contraditórias, confessaram o plano de fuga: combinou-se que piscariam o farol três vezes como sinal para Henrique sair do mato. Ele usou o telefone satelital para se comunicar com os parentes. O coronel Heber contou: "O pessoal nosso acompanhou, chegou ao local pré-estabelecido e fez conforme haviam combinado. Ele saiu do mato e aí as equipes procederam à abordagem". Todos foram levados à delegacia da PF em Jataí.
O advogado de Henrique, Luís Henrique Viana dos Reis, disse ao g1 que buscará liberdade provisória, argumentando que o piloto é réu primário e trabalhador autônomo. "Ele não possui qualquer antecedente criminal, é trabalhador, possui remuneração lícita. Nós vamos tentar reverter, conseguir liberdade provisória", afirmou.



