A Polícia Federal (PF) revelou que os riscos de afundamento do solo em Maceió, provocados pela mineração de sal-gema, já eram conhecidos desde a década de 1980 pela Salgema, empresa que antecedeu a Braskem. Os laudos periciais, aos quais o g1 teve acesso, embasam a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra ex-dirigentes e técnicos ligados à exploração das minas. A atividade resultou na desocupação de cinco bairros da capital alagoana: Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol.
Alertas ignorados desde os anos 1980
Conforme a investigação, estudos técnicos contratados em 1986 já alertavam para a possibilidade de subsidência — um rebaixamento gradual do terreno. Os documentos recomendavam medidas de controle para evitar danos na superfície. Naquele mesmo ano, registros analisados pelos peritos apontavam vibrações causadas por desmoronamentos em cavidades subterrâneas. Em 1989, consultores especializados fizeram novos alertas sobre a formação de uma "bacia de subsidência" e o risco de crateras em caso de colapso.
Afundamento detectável a partir dos anos 1990
As perícias indicam que o processo de afundamento do solo se tornou detectável a partir do final da década de 1990. Dados topográficos e levantamentos técnicos analisados pela PF mostram alterações progressivas no terreno da região das minas. Apesar disso, a empresa continuou sustentando oficialmente que não havia evidências de acomodação do solo.
Conhecimento formal desde 2003
Um dos principais pontos da denúncia é a conclusão de que a Braskem (criada em 2002 a partir da integração de outras empresas, incluindo a Salgema) tinha conhecimento formal do processo de subsidência pelo menos desde 2003. Naquele ano, a PF afirma que a empresa já possuía dados de monitoramento indicando alterações significativas no relevo. Ainda assim, informou às autoridades, em documentos oficiais, que não havia evidências de afundamento. Para os investigadores, esse foi o início de uma série de omissões e supostas fraudes que contribuíram para esconder a gravidade do problema por mais de uma década. A crise só veio à tona em 2018, após tremores de terra e rachaduras em imóveis.
Danos irreversíveis e evacuação em massa
Em laudo concluído em 2024, a PF classificou os danos como significativos e irreversíveis, afirmando que parte das áreas afetadas se tornou permanentemente imprópria para ocupação humana. A denúncia do MPF reforça que os sinais de afundamento foram ignorados por décadas, muito antes da crise se tornar pública e forçar a evacuação de milhares de famílias.
O que é o sal-gema?
O sal-gema é um minério extraído de rochas a mais de mil metros de profundidade, formado ao longo de milhares de anos pela evaporação de oceanos. Em Alagoas, é extraído por dissolução: a empresa cava um poço até cerca de 1,2 mil metros, injeta água para formar salmoura e depois a retira para extrair o sal. O sal-gema é usado na indústria química para fabricar cloro, soda cáustica, ácido clorídrico, bicarbonato de sódio, além de produtos como papel, celulose, vidro, sabão, detergente e pasta de dente.
Posicionamento da Braskem
Em nota, a Braskem reiterou solidariedade com os moradores afetados e afirmou que sempre atuou em conformidade com as leis e regulações do setor. A empresa disse que se pronunciará nos autos do processo e que contribuiu com informações e esclarecimentos desde o início das apurações.
Relembre o caso
A mineração em Maceió começou na década de 1970, com a antiga Salgema Indústrias Químicas, atual Braskem, autorizada a extrair sal-gema. Em 2018, surgiram as primeiras rachaduras no bairro do Pinheiro. Um tremor de terra agravou a situação, causando danos estruturais. Em 2019, o problema se espalhou para Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol, levando à evacuação de milhares de moradores. O Serviço Geológico do Brasil confirmou que a extração de sal-gema causou a instabilidade do solo. Mais de 14 mil imóveis foram desocupados, afetando cerca de 60 mil pessoas. A Braskem fechou as minas em 2019 e iniciou a estabilização das 35 cavidades subterrâneas, criando um programa de compensação financeira, embora muitos contestem os valores na Justiça. Em 2023, parte da mina 18 cedeu sob a Lagoa Mundaú, no Mutange, e o colapso foi controlado. Em 2024, o diretor Marcelo Arantes reconheceu a culpa da empresa em CPI do Senado. Em julho de 2025, a Defensoria Pública de Alagoas pediu indenização de R$ 4 bilhões pela desvalorização de imóveis em bairros vizinhos.



