A Polícia Federal deflagrou a Operação Exchange para investigar o desvio de recursos de 'emendas Pix' e a lavagem de dinheiro do tráfico de drogas, com movimentação estimada em até R$ 10,4 bilhões. A investigação aponta que a organização criminosa, chefiada pelo empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada — alvo de sanções dos Estados Unidos e atualmente foragido — mantinha operações financeiras em diversos países para ocultar a origem dos recursos.
Estrutura internacional e uso de criptomoedas
Segundo a decisão judicial que autorizou as prisões e buscas, Shimada utilizava o apelido 'Bryan Willians' em grupos de WhatsApp para controlar movimentações financeiras. Em uma das conversas, ele compartilhou uma planilha com registros de datas, cidades, valores movimentados, taxas de câmbio e saldos, somando US$ 7,54 milhões em operações distribuídas por grandes cidades dos EUA, como Houston, Chicago, Denver, Atlanta, Cleveland, Nashville, Memphis e Los Angeles. Para a PF, os registros indicam recolhimento sistemático de dinheiro em espécie e uso de estruturas financeiras para ocultar a origem dos recursos.
A investigação também identificou indícios de atuação do grupo em Portugal, Paraguai, Argentina, Panamá e Colômbia. Em uma conversa, Ygor Fokin Saviolli, apontado como um dos responsáveis pela organização, relatou ter participado de uma reunião na Colômbia sobre oportunidades de recolhimento de milhões de dólares em cidades americanas.
Atuação como doleiro e operações no exterior
A PF afirma haver fortes indícios de que Shimada atuava como 'doleiro', intermediando transações em diferentes países e organizando a entrega e recebimento de dinheiro em espécie por meio de pessoas de confiança. Entre os auxiliares citados estão o tio Amauri Henrique de Oliveira, a prima Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira — presa nesta sexta-feira (3) — e o operador financeiro Carlos Henrique Costa Almeida. Stella participava da coordenação de operações internacionais, com conversas mencionando planilhas de movimentações referentes a 'EUA, Portugal e outros' e remessas com o codinome 'Lisboa'. Os investigadores afirmam que ela atuava na gestão financeira e na coordenação de entregas de valores no exterior.
Em Portugal, Carlos Henrique Costa Almeida recebia e custodiava euros para o grupo. Mensagens entre ele e Shimada discutem a entrega de centenas de milhares de euros em Lisboa e Cascais, além da compra e venda de moeda estrangeira para brasileiros residentes no país.
Câmbio paralelo na Argentina e Paraguai
As mensagens analisadas pela PF mostram tratativas envolvendo câmbio paralelo no Paraguai e na Argentina. João Gilberto Codognotto, conhecido como 'Giba', propôs a Shimada uma operação em Assunção, com depósito de US$ 50 mil convertidos em guaranis e posterior compensação no Brasil. Em outro diálogo, apresentou uma oportunidade envolvendo 1 bilhão de pesos argentinos disponíveis em Buenos Aires. Segundo a decisão judicial, Shimada respondeu que a conversão seria feita utilizando o mercado informal 'dólar blue', expressão usada para o câmbio paralelo na Argentina.
A Argentina também aparece em outra frente investigada: Diego Lameiro Diz atuava em negociações relacionadas à comercialização de alho produzido em Mendoza, atividade suspeita de ser usada para movimentação de recursos do grupo.
Ferramentas para dificultar rastreamento
A organização utilizava diversas ferramentas para dificultar o rastreamento, incluindo criptomoedas, empresas de fachada, telefones não registrados e aplicativos criptografados como Signal e Telegram. Shimada liderava o núcleo financeiro e usava empresas como Victory Trading, Transborder Import and Export, Pixwave Soluções de Pagamentos e GP8 Pay para movimentar recursos. As conversas mostram operações em dólares, euros, pesos argentinos e guaranis paraguaios, além do uso de criptomoedas como USDT e Bitcoin.



