PF encontra áudio em que líder de quadrilha cogita matar durante investigação
PF acha áudio de líder de quadrilha cogitando matar

Uma gravação obtida pela Polícia Federal durante as investigações sobre uma organização criminosa suspeita de desviar R$ 45 milhões de clientes da Caixa Econômica Federal revela que o líder do grupo, Jader Henrique Arias de Almeida, chegou a cogitar medidas extremas para conter o avanço das apurações. No áudio, localizado em celulares apreendidos na operação, Jader comenta o andamento dos inquéritos e sugere a possibilidade de recorrer à violência: "O dinheiro da pessoa só segura aqui, segura ali... segura a delegacia... manda matar...".

Investigação revela possível vazamento na Justiça Federal

Segundo os investigadores, não há indícios de que a ameaça tenha sido executada. A Polícia Federal afirmou que a ideia foi discutida, mas não levada adiante. A gravação foi descoberta durante uma apuração que inicialmente investigava fraudes contra correntistas da Caixa, mas ganhou novos contornos após a constatação de que membros da quadrilha tiveram acesso antecipado a uma decisão judicial protegida por segredo de Justiça.

A análise dos aparelhos celulares revelou que o documento circulou entre os investigados antes do cumprimento dos mandados de busca e apreensão. A partir dessa descoberta, a investigação passou a apurar um possível vazamento de informações dentro da Justiça Federal. A Polícia Federal suspeita que três servidores repassaram dados sigilosos ao grupo criminoso. As defesas negam envolvimento ou não se manifestaram.

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Esquema tinha núcleos em São Paulo e no Rio de Janeiro

O levantamento da PF identificou dois núcleos de atuação. Em São Paulo, o casal Matheus Casado Natário e Isabely Alves de Sousa coordenava as fraudes e obtinha acesso às contas das vítimas. Eles criaram uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas, paraíso fiscal, para dificultar a recuperação de valores, e mantinham parte dos recursos desviados em criptomoedas, mais difíceis de rastrear.

Já no Rio de Janeiro, Jader Henrique Areas de Almeida era o chefe, coordenando as ações da organização. Ele confirmava os golpes, definia as datas e distribuía os dados das vítimas. Enzo Grillo Filho, apontado como operador financeiro, era o testa de ferro de Jader e fazia o dinheiro circular entre Rio e São Paulo.

Documento sigiloso chegou à quadrilha por servidor

A Polícia Federal descobriu que os criminosos tiveram acesso à íntegra da decisão judicial que autorizava a operação. O documento, protegido por segredo de Justiça, só poderia ser acessado por juízes, investigadores e servidores da Justiça Federal. O chefe da quadrilha apagou a mensagem com o documento, mas uma cópia permaneceu no bloco de notas do celular. Em uma conversa, ele encaminha o documento a um comparsa, que responde: "Que zica, hein... Blindar o patrimônio".

Refazendo o caminho do documento, a PF identificou que o primeiro acesso foi feito por Jackson Cozendey, servidor da Justiça Federal. Os investigadores afirmam que ele não tinha motivo funcional para consultar o processo e o apontam como principal responsável por repassar as informações, em troca de pagamentos. A conexão de internet utilizada estava instalada no escritório de advocacia de sua esposa, Gabrielle Cozendey. A advogada declarou renda mensal de R$ 5.200, mas movimentou R$ 1,74 milhão em seis meses.

A defesa de Jackson e Gabrielle Cozendey afirma que eles não possuem qualquer vinculação com os fatos apurados. A PF sustenta que houve atuação coordenada de três servidores para retirar a decisão de dentro da Justiça. As defesas do casal Matheus e Isabely, e de Jader Almeida, não responderam aos contatos. O Fantástico também não conseguiu falar com os advogados de Enzo Grillo Filho.

Novos mandados e afastamentos

O Fantástico apurou que a Polícia Federal e o Ministério Público Federal pediram novos mandados de busca e apreensão para serem cumpridos dentro da própria Justiça Federal. Os servidores investigados foram afastados das funções enquanto as apurações continuam. A Justiça Federal, por meio do TRF, não se pronunciou sobre a investigação.

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