O delegado Marcos Buss, responsável pela Delegacia de Defraudações (DDEF) do Rio de Janeiro, revelou detalhes da Operação Tela Falsa, que resultou na prisão de uma falsa advogada suspeita de aplicar golpes milionários envolvendo obras de arte e imóveis de luxo. A ação ocorreu nesta quarta-feira (3) e chocou a sociedade fluminense.
Quem é a suspeita
Michele Coelho Montenegro, também conhecida como Mia Montenegro, de 47 anos, ocupava um cargo na Secretaria da Casa Civil do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Segundo o governo estadual, ela foi nomeada há cerca de um ano e atuava no desenvolvimento do projeto Palácio Verde, uma iniciativa de educação ambiental e economia circular realizada nos palácios Guanabara e Laranjeiras. Ainda de acordo com o governo, Michele tinha direito a carro oficial e recebia salário líquido de aproximadamente R$ 12 mil. Após a prisão, ela foi exonerada do cargo, com publicação em edição extra do Diário Oficial.
Detalhes da investigação
A Operação Tela Falsa foi deflagrada pela DDEF e cumpriu 10 mandados de busca e apreensão. Michele foi presa em sua residência, em Ipanema, na Zona Sul do Rio. O prejuízo estimado da vítima, um antiquário, é de pelo menos R$ 2 milhões, podendo chegar a R$ 10 milhões. “A investigação envolve fraudes com cifras milionárias”, afirmou o delegado Marcos Buss.
Como o golpe funcionava
De acordo com Buss, Michele se apresentava ao antiquário “como uma pessoa muito rica e como advogada — sem ser”. Ela se apropriou de obras de arte de alto valor comercial recebidas para intermediação de venda, incluindo peças atribuídas aos artistas Sérgio Camargo (dois relevos em madeira pintada, sem título) e Ivan Serpa (um quadro da Série Amazônia e outro da Série Mangueira). “Ela conseguiu ludibriar todo um cenário. Esse dono de antiquário acabou entregando a ela quatro obras de arte que, juntas, estão avaliadas em mais de R$ 10 milhões”, detalhou o delegado.
As obras passaram a ser negociadas como se fossem de propriedade da acusada, sem devolução ao legítimo proprietário. A investigação aponta ainda que Michele utilizava cheques sem fundos e comprovantes bancários falsos para simular pagamentos, induzindo a vítima a erro e ampliando os prejuízos. Três obras de arte ainda estão desaparecidas, mas o quadro da Série Mangueira de Serpa foi recuperado na casa do advogado Felipe Barbosa Bittencourt, preso em flagrante por receptação.
Fraude imobiliária
Além das obras de arte, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) apontou fraude na negociação de um imóvel em Copacabana. O antiquário assinou uma promessa de compra e venda e desembolsou R$ 120 mil para que Mia intermediasse o negócio, que nunca se concretizou.
Antecedentes criminais
Michele é considerada pelos investigadores uma especialista em aplicar golpes. Sua ficha criminal é extensa: somente no Tribunal de Justiça do Rio, há 14 processos em que ela responde ou respondeu por estelionato. Ela já foi condenada a 2 anos de prisão e cumpriu a pena no regime semiaberto. Os investigados podem responder por estelionato e apropriação indébita.
Posicionamentos
A defesa de Michele Coelho Montenegro não quis se pronunciar. Já a defesa de Felipe Barbosa Bittencourt afirmou que vai esclarecer a verdade no decorrer do processo. O governo do estado declarou que Michele foi nomeada pela gestão passada e que o carro usado por ela foi devolvido na tarde desta quarta-feira. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) informou não ter localizado registros ativos em nome de Michele e, se for confirmada a participação de algum advogado nas fraudes, abrirá um processo ético-disciplinar.



