O imigrante nigeriano agredido por policiais militares durante uma abordagem no bairro Cambuí, em Campinas (SP), na tarde de quarta-feira (10), afirmou ao g1 que veio ao Brasil para trabalhar e, por enquanto, pretende permanecer no país. Identificado como Jerry, de 31 anos, ele não fala português, mas conversou em inglês com a reportagem nesta quinta-feira (11).
Rotina na praça e recusa a abrigos
Jerry passa os dias na Praça XV de Novembro, local onde ocorreu a abordagem. Segundo apuração do g1, ele é casado e chegou ao Brasil em fevereiro de 2023. Jerry afirma que recusou ofertas da prefeitura para ficar em abrigos e diz que a agressão registrada por moradores na quarta-feira não foi a primeira que sofreu. O nigeriano relatou ter sofrido ferimentos durante a ação policial, mas não procurou atendimento médico. Questionado se tem receio de continuar frequentando a praça após o episódio, respondeu que não.
Jerry é conhecido por frequentadores da Praça XV de Novembro. De acordo com relatos de pessoas da região, costuma passar os dias sentado ou deitado nos bancos, geralmente em silêncio. Ao g1, afirmou que reza com frequência para que "o mundo fique melhor".
Histórico de abordagens
Este não é o primeiro registro envolvendo Jerry na Polícia Civil por desacato e desobediência. Em 4 de junho, ele foi levado à delegacia por desobediência, resistência, desacato e por se recusar a fornecer informações sobre a própria identidade. A ocorrência foi registrada em frente a um supermercado na Avenida Orozimbo Maia. Segundo o relato policial, o homem abordava clientes pedindo que comprassem produtos para ele e estava "extremamente alterado". A ação ocorreu após solicitação de um vigilante. No local, os policiais pediram que Jerry, que estava sentado, se levantasse, mas ele não obedeceu. Ainda de acordo com a PM, durante a abordagem o imigrante tentou agredir os agentes e pegar a arma de um deles. Os policiais também relataram que ele dizia frases desconexas e com teor ofensivo, mas que não era possível compreendê-las. Jerry foi detido e levado à delegacia, onde a Polícia Federal foi acionada e forneceu informações sobre a identidade dele. Na unidade policial, ao ser questionado sobre a identificação, ele demonstrou desconfiança, recusou-se a colaborar, sentou-se e começou a rezar. Em seguida, foi liberado.
Caso recente
Sobre o caso mais recente, Jerry contou que os policiais ordenaram que colocasse as mãos na cabeça. Segundo ele, conseguiu entender o comando em português porque já havia sido abordado outras vezes. Em seguida, porém, não compreendeu a ordem para se ajoelhar e pediu que os agentes explicassem o que queriam. De acordo com seu relato, foi nesse momento que as agressões começaram. Ele afirma ainda que os policiais usaram gás e algemas para contê-lo. Jerry disse que foi levado à delegacia, onde permaneceu por menos de cinco minutos antes de ser liberado. A ocorrência foi registrada no 1º Distrito Policial por resistência e desobediência. Segundo os policiais, a abordagem ocorreu após ele ser visto deitado em um banco da praça, embora a motivação da ação não tenha sido informada. Os agentes também registraram que um dos policiais feriu a mão durante a contenção do homem com algemas.
O que diz a PM?
Em nota, a Polícia Militar informou que não compactua com excessos e pune com rigor todos os casos identificados. "O comando do 8º Batalhão do Interior determinou a instauração de um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar os fatos, inclusive com análise do vídeo veiculado e das câmeras corporais dos agentes envolvidos na ocorrência. O procedimento será acompanhado pela Corregedoria Geral da PM."
O que diz a prefeitura?
A prefeitura de Campinas informou que realizou diversas abordagens ao imigrante, oferecendo acolhimento, orientações e apoio, mas ele recusou. A rede municipal acionou o Centro de Referência do Imigrante, Refugiado e Apátrida e manteve contato com a mãe de Jerry, na Nigéria. A mãe solicitou que os serviços públicos continuassem acompanhando o caso. A prefeitura destacou que o acolhimento institucional não pode ser feito de forma compulsória, exceto em situações previstas em lei. Mesmo diante das recusas, a rede municipal mantém o acompanhamento e continuará oferecendo suporte.



