A região do 14° Distrito Policial (Pinheiros), que abrange o bairro de mesmo nome e a Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo, registrou alta de roubos e furtos de janeiro a abril, como mostrou o Radar da Criminalidade, ferramenta desenvolvida com exclusividade pelo Estadão. Foram 1,2 mil registros de roubo de janeiro a abril, aumento de 7% ante o mesmo período do ano passado. Já os furtos saltaram para 3,4 mil ocorrências (+8,8%).
Moradores decidem deixar bairros nobres por medo
Com medo da violência, moradores ouvidos pelo Estadão já resolveram trocar de endereço, embora essa seja uma das regiões mais valorizadas do centro expandido, com ampla oferta de comércio e infraestrutura urbana, como estações de metrô. É o caso de Sofia Schuck, de 31 anos. Ela saiu de Pinheiros dois anos e meio depois de se mudar para o bairro com o namorado. A decisão veio após seu parceiro, Luiz Felipe Medeiros, de 36, ser vítima de assalto à mão armada em frente ao condomínio onde moravam, em novembro de 2025. O crime foi na Rua Alves Guimarães, mesmo endereço onde um homem foi roubado e agredido por um motociclista enquanto passeava com o cachorro, em janeiro deste ano. Sofia afirma que não eram poucos os relatos na região de quem teve pertences levados por bandidos. “Era todo dia um caso de vizinho, conhecido ou algum bar que tinha passado por isso”. Mesmo gostando do bairro, Sofia e Medeiros se mudaram para os Jardins há pouco mais de um mês, onde ela diz se sentir mais segura.
Fotógrafa troca Vila Madalena por cidade do interior
Após 15 anos na Vila Madalena, a fotógrafa Silvia Torre, de 46, trocou Pinheiros por um CEP ainda mais distante: a pequena São Pedro, a cerca de 200 quilômetros da capital. Para ela, a decisão veio como forma de reparar danos psicológicos e financeiros causados pela insegurança. Ao Estadão, a fotógrafa diz que começou a presenciar eventos violentos na Vila Madalena ainda em 2013. A piora, entretanto, veio nos últimos dois anos. Silvia e o marido, que nasceu na Vila Madalena e viveu na região até os 56 anos, ainda têm amigos e familiares no bairro, como a própria filha. Na última vez que o casal visitou o bairro, em dezembro, foram assaltados. “Eram nove da manhã. Dois motoqueiros passaram por nós, um ficou mais à frente, esperando, e o outro nos assaltou. O rapaz veio com o revólver na minha cabeça, foi muito traumatizante. Meu marido se assustou na hora e não conseguia tirar a aliança (pedida pelo assaltante). Ele (assaltante) ficou nervoso e mirou a arma no peito do meu marido. Se atirasse, ele morreria", relata. “Meu marido foi sequestrado duas vezes. O primeiro foi relâmpago. O outro foi bem pior: ele ficou preso por dois dias.”
Trauma psicológico e mudança de hábitos
Silvia diz que o medo da violência virou também um problema para o seu trabalho como fotógrafa, já que seu estúdio ficava dentro de casa e ela tinha medo de deixar estranhos entrarem. Já o marido, segundo ela, precisou de acompanhamento psicológico, remédios e ficou sem dirigir por dois anos. “Ele entrou em depressão. Tinha medo de dirigir e o sequestrarem de novo. Durante um tempo, era só ver um motoqueiro na rua que já jogava o carro para o lado para desviar. Ele só perdeu o trauma aqui no interior, mas levou um tempo.”
Biólogo e bancário também pensam em sair
O biólogo Nelson Novaes, de 50 anos, vive há onze em Pinheiros. No começo, ele trocou o carro pela “vida de bairro”, que seguia tranquila até 2023. Nesse ano, ele e a família foram assaltados duas vezes por motociclistas armados. “Quis acreditar que a primeira foi pontual, mas quatro dias depois fomos assaltados novamente", relata. A ocorrência mais recente foi em maio, quando o biólogo sofreu uma tentativa de assalto na região. “Queria muito sair, inclusive de São Paulo, mas enquanto a gente não tem condições de buscar uma cidade com mais segurança, talvez a gente precise sair de Pinheiros", afirma. Aglay Louzada, de 51 anos, vive em Pinheiros desde 2010. E também pensa em sair do bairro. “Penso em deixar Pinheiros todos os dias, mas sei que não vou fazer isso tão cedo. Minha casa é aqui, gosto do bairro, mas minha rotina já não é mais a mesma do que era antes da pandemia. Deixei de fazer várias coisas", afirma. Ela conta que seu marido já presenciou diversos assaltos enquanto passeava com a cachorra do casal pela área. Além disso, um jovem — Vitor Rocha, de 23 anos — foi baleado e morto durante assalto próximo à sua residência, em janeiro do ano passado. “Depois disso, o pânico de qualquer tipo de motocicleta que venha ficou insustentável. Passa uma motocicleta por mim, e viro estátua", conta Aglay. “Sempre penso em me mudar", diz o bancário Marcos Santos, de 38 anos. “Como alugo, tenho essa flexibilidade, ao contrário de colegas proprietários de imóveis na região. Estou 100% do tempo avaliando outras localidades, apesar de achar que a criminalidade vai se movendo. Infelizmente, hoje está em Pinheiros", avalia.
Estratégias para conviver com a violência
Ele diz que, enquanto não concretiza o plano, ele e a mulher mudaram a rotina. Quando passeiam com o cachorro, evitam levar objetos de valor. “Saio só com o smartwatch para fazer algum pagamento caso queira consumir alguma coisa. Mas, principalmente, para ter algo para o ladrão levar no caso de possível assalto”. Com a crescente violência, outra estratégia que Marcos adotou foi investir em dois celulares. “O que mais me preocupa é a violência nos assaltos. A gente vê muitos relatos onde a pessoa (que rouba) é agressiva, principalmente se você não tem nada de valor."
Secretaria de Segurança diz ter ações contra roubos
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública do Estado informou ao Estadão que as polícias Civil e Militar atuam em conjunto em toda a capital, incluindo os bairros citados pela reportagem, visando a “coibir todo tipo de modalidade criminosa com ações de policiamento ostensivo, patrulhamento preventivo e operações baseadas em análise de inteligência policial”. Ainda afirma que a PM intensificou o policiamento na região de Pinheiros e Vila Madalena. A pasta diz que são realizadas as operações “Impacto”, com foco em crimes contra o patrimônio, “Big Mobile e Mobile”, contra furto, roubo e receptação de celulares, “Drake”, contra roubo de motocicletas, e “Pedal”, contra roubos praticados por falsos ciclistas entregadores de aplicativo. As ações, conforme a secretaria, contribuíram para a prisão e apreensão de 307 infratores nos bairros e queda de 7,64% de ações delituosas no 1º quadrimestre, em comparação com o mesmo período de 2025.



