Milícia e tráfico transformam comerciantes e clientes em reféns no Rio
Milícia e tráfico fazem reféns comerciantes e clientes no Rio

O domínio exercido por milícias e facções criminosas sobre a venda de produtos em comunidades do Rio de Janeiro vai além da imposição de fornecedores e do aumento dos preços. Segundo as investigações, o esquema funciona como uma espécie de sistema paralelo de tributação, criado pelos grupos criminosos para arrecadar recursos e financiar suas atividades.

Sistema paralelo de tributação

Conhecida entre os próprios integrantes das organizações como "taxa de guerra", a cobrança é embutida no preço de mercadorias vendidas em áreas dominadas. O dinheiro obtido com a comercialização de produtos como farinha de trigo, frango assado, água, gás, hortifrúti e materiais de construção seria utilizado para manter a estrutura das facções e milícias, incluindo a compra de armas e equipamentos para defender territórios de invasões rivais ou de operações da polícia.

Na prática, o mecanismo funciona por meio da imposição de fornecedores escolhidos pelos criminosos. Comerciantes afirmam que são obrigados a adquirir mercadorias de determinadas distribuidoras, muitas vezes por preços acima dos praticados no mercado. Sem concorrência, os custos aumentam e acabam sendo repassados aos consumidores.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Depoimento de morador

"O imposto que o governo nos cobra, quem está cobrando agora é a milícia, e ficando para ela. Ela não reverte isso em qualidade de vida para ninguém. A cada dia ela é mais dona. Esse lucro é todo para eles. Então fica tudo muito mais caro para essa pessoa que é desassistida pelo Estado", afirma um morador.

Monopólio do crime

A lógica é semelhante à de um monopólio. Os criminosos determinam quem pode vender, quais produtos devem ser comprados e por qual valor. Quem descumpre as regras corre risco de sofrer ameaças e retaliações. Em alguns casos, fornecedores concorrentes são expulsos das regiões dominadas.

Segundo especialistas, os maiores prejudicados são justamente os moradores dessas áreas. Além de conviverem com a falta de opções, eles acabam pagando mais caro por produtos básicos do dia a dia.

"Essas famílias já são muito vulneráveis ao processo inflacionário. E se você ainda impõe uma taxa extra para essas famílias, o produto chega mais caro para elas", diz um especialista ouvido pela reportagem.

As consequências também atingem a economia formal. Empresas que antes abasteciam essas regiões perdem mercado de forma repentina quando organizações criminosas passam a controlar a distribuição. Para comerciantes, o resultado é um ambiente de medo e dependência.

"O lucro é todo para eles", resumiu um empresário. "Você trabalha para eles, você vira o funcionário deles."

Prisões e condições precárias

Na última quarta-feira, a Polícia Civil cumpriu 14 mandados de busca e apreensão em endereços relacionados às empresas investigadas. Em um dos depósitos, os agentes encontraram produtos fora da validade e prenderam um homem em flagrante. Em outro local, foram identificadas condições precárias de armazenamento, com alimentos próximos a fezes de animais.

Enquanto isso, comerciantes relatam sensação de impotência diante das ameaças. "Eu te confesso, eu perdi a vontade de trabalhar. Em breve, se Deus quiser, eu passo minha loja. Você trabalha para eles, vira funcionário deles", afirmou uma das vítimas ouvidas pelo Fantástico.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar