A psicóloga Shaiane Costa colocou um gravador na mochila do filho de 3 anos, Pedro (nome fictício), após notar mudanças de comportamento. O menino frequentava a Escola de Educação Tio Chico, mantida pela Brigada Militar do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Na gravação, é possível ouvir uma mulher dizendo: 'Chora, pode chorar, chora bastante, chora com vontade. Senão vou te dar um tiro.' A BBC News Brasil teve acesso aos áudios.
Criança chegava rouca e com medo
Pedro começou a acordar de madrugada chorando, perguntando se precisava ir à escola. A mãe relata que ele pedia desculpas excessivamente por qualquer erro e chorava ao se aproximar da instituição. Em um dia, ele voltou rouco; a mãe pensou ser resfriado, mas a gravação revelou que ele chorou por cerca de 40 minutos. 'Ele chegou quase sem voz', conta Shaiane.
Em outro trecho, ouve-se a professora dizer: 'O que tu tá fazendo? Tu não vais pintar mais.' O menino responde 'Desculpa', e ela afirma: 'Não, tu não vais pintar mais, acabou. Eu adoro pintar e vou.' A criança chora e pede pela mãe, recebendo a resposta: 'Não me vem com mamãe.'
Mordida e febre sem comunicação
Antes da gravação, Shaiane já desconfiava de episódios como uma mordida no braço sem explicação. Ao questionar a professora, ouviu que ninguém viu e que a criança não chorou. 'Uma mordida daquelas deve ter doído, e é normal que a criança chore', afirma. Em outra ocasião, Pedro voltou com febre alta sem aviso prévio à família. Também chegou com assadura severa, dificultando a caminhada.
As tentativas de diálogo com a escola foram frustradas. 'Mandei mensagens para a sargenta, que é como se fosse a coordenadora, e não tive retorno', diz Shaiane. 'Eu ficava ali sendo ignorada.'
Inquérito e arquivamento
Shaiane e o marido recorreram ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), que orientou denúncia na Corregedoria da Brigada Militar. A Brigada afirmou que abriu inquérito e afastou a professora, mas ela retornou antes da conclusão. A nota oficial diz que o laudo pericial 'não apresentou elementos técnicos suficientes para confirmar integralmente o conteúdo divulgado, nem permitiram a identificação conclusiva da autoria vocal'. No entanto, depoimentos de duas servidoras da escola, aos quais a BBC News Brasil teve acesso, reconheceram a voz e identificaram a professora.
A Brigada pediu o arquivamento do caso na Justiça Militar, mas o processo não está encerrado. A professora deixou a escola no fim do ano, sem explicação oficial. 'Não cabe à instituição divulgar informações individualizadas sobre servidores ou empregados', afirmou a Brigada.
Consequências para a criança
Pedro está em outra escola desde o início do ano. Shaiane conta que ele tem pânico de portas fechadas, pois dizia que ficava trancado na sala da sargento de castigo. 'Isso sempre foi negado pela escola, mas durante o processo foi encaminhado um documento com informações da coordenadora afirmando que ele esteve sim na sala dela, com data e horário', relata. A mãe espera que a terapia ajude o filho, mas se pergunta: 'O que mais ele passou?'



