Lua cheia aumenta ataques de tubarão? Ciência explica relação
Lua cheia e ataques de tubarão: o que diz a ciência

Dois incidentes registrados recentemente no litoral do Recife (PE) reacenderam uma dúvida frequente entre banhistas: a lua cheia pode influenciar ataques de tubarão? Pesquisas científicas indicam que existe uma relação entre os ciclos lunares e o aumento do número de ocorrências, mas especialistas alertam que a explicação está longe de um mito sobre animais mais agressivos. O que muda é o ambiente marinho.

Incidentes recentes em Pernambuco

No último domingo (31) e na segunda-feira (1º), duas pessoas foram atacadas por tubarões no Brasil. O último incidente ocorreu na Praia de Boa Viagem, em Recife (PE), uma das áreas mais monitoradas do país quando o assunto é convivência entre seres humanos e grandes predadores marinhos. Os dois registros ocorreram em período de lua cheia.

O que a ciência diz sobre a lua e os tubarões

A relação entre as fases lunares e o comportamento dos tubarões vem sendo estudada há décadas. Uma das pesquisas mais abrangentes sobre o tema foi publicada na revista científica Frontiers in Marine Science, por pesquisadores da Louisiana State University e da Universidade da Flórida. O trabalho analisou quase 50 anos de registros globais de ataques de tubarão compilados pelo International Shark Attack File (ISAF), considerado o maior banco de dados do mundo sobre o tema.

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Os cientistas encontraram evidências de que ataques ocorreram com frequência acima da esperada durante períodos de maior iluminação lunar. Já os registros significativamente abaixo do esperado foram observados em fases menos iluminadas da Lua. Os autores destacam, porém, que a maioria dos ataques acontece durante o dia. Por isso, a luz do luar não aparece como explicação direta para o fenômeno.

Segundo o estudo, a relação pode estar ligada ao chamado “efeito lunar”, conjunto de alterações provocadas pelos ciclos da Lua sobre marés, correntes marinhas e outros fatores ambientais que influenciam toda a cadeia ecológica dos oceanos. Apesar dos resultados, os próprios pesquisadores fazem uma ressalva importante: o estudo identificou uma correlação estatística, mas não foi capaz de determinar exatamente qual mecanismo provoca o aumento dos incidentes. Eles defendem que fatores locais continuam sendo fundamentais para compreender o risco em cada região.

O que acontece em Pernambuco

No Brasil, a relação entre ciclos lunares e ataques de tubarão recebe atenção especial em Pernambuco. O Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) considera os períodos de lua cheia e lua nova como momentos de maior atenção devido às chamadas marés de sizígia. Esse fenômeno ocorre quando Sol e Lua exercem suas forças gravitacionais na mesma direção, provocando marés mais intensas.

No litoral recifense, essas condições alteram significativamente a dinâmica costeira. Entre os fatores observados pelos especialistas está a presença de um canal profundo localizado entre a praia e os arrecifes. Durante as marés mais altas, um volume maior de água cobre bancos de areia e facilita a circulação de grandes tubarões em áreas mais próximas da costa.

Outro aspecto importante é a turbidez da água. As marés mais fortes revolvem sedimentos do fundo marinho e reduzem a visibilidade. Segundo especialistas que monitoram os incidentes na região, essas condições podem favorecer as chamadas mordidas investigativas, quando o tubarão utiliza outros sentidos para identificar possíveis alvos.

A Lua como “maestro” da biodiversidade

A influência da Lua sobre os seres vivos não é exclusiva dos tubarões. Diversas espécies sincronizam comportamentos importantes com os ciclos lunares. O biólogo Roberto Leonan M. Novaes, pesquisador da Fiocruz e doutor em Biodiversidade e Biologia Evolutiva pela UFRJ, explica que o satélite atua como um verdadeiro maestro da natureza. “Muitos corais marinhos sincronizam sua reprodução baseados nos ciclos lunares, aumentando o sucesso reprodutivo. Esse efeito também ocorre em anelídeos e peixes”, explica o pesquisador.

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Até mesmo as tartarugas-verdes guiam-se por esse calendário astronômico para realizar a cópula e a postura de ovos nas praias. A influência não se restringe às águas. Em terra firme, a iluminação noturna dita o ritmo da vida e até a evolução das espécies. Novaes destaca que a iluminação lunar exerceu papel fundamental na seleção natural da visão dos animais ao longo dos milênios.

“Os mamíferos predadores têm olhos altamente adaptados para uma visão funcional em ambientes escuros, e poucos feixes de luz, como da lua, já são capazes de permitir que esses animais possam caçar suas presas usando primariamente a visão”, pontua o doutor. O pesquisador ressalta que, embora a luz lunar tenha mais impacto comportamental do que diretamente hormonal, há evidências de que ela afete a produção de melatonina — que, por sua vez, regula indiretamente hormônios reprodutivos em certos animais. Algumas espécies de sapos apresentam maior atividade de canto e atração de parceiros para reprodução justamente em noites mais iluminadas pela lua cheia.

O grande desafio atual, no entanto, não é o brilho natural da lua, mas a interferência humana. O biólogo alerta para os riscos da poluição luminosa das cidades, que pode causar desorientação trágica na fauna. “A luz artificial também pode confundir filhotes de tartarugas marinhas, que quando eclodem do ovo são guiadas até o mar, dentre outros fatores, pela atração da luz da lua e estrelas refletindo na água”, adverte Novaes. Ao caminharem na direção das luzes urbanas, essas recém-nascidas acabam expostas a predadores e atropelamentos.

Como reduzir os riscos

Especialistas reforçam que a prevenção continua sendo a principal ferramenta para reduzir incidentes. As recomendações incluem respeitar a sinalização das praias, evitar entrar no mar durante períodos de maré muito alta, não nadar em áreas profundas ou próximas a canais e evitar banhos em águas excessivamente turvas. Também é importante seguir orientações de guarda-vidas e órgãos de monitoramento locais, especialmente em regiões com histórico de ocorrências.

Mais do que transformar tubarões em vilões, os estudos ajudam a compreender como fatores naturais moldam a dinâmica dos oceanos. A lua cheia não torna esses animais mais agressivos. O que ela faz é alterar o ambiente marinho e, em determinadas circunstâncias, aumentar as chances de encontro entre humanos e um dos mais antigos predadores do planeta.