Uma investigação do Serviço Mundial da BBC concluiu que um em cada cinco anúncios do Instagram na Índia promove material contendo abuso sexual infantil. Os anúncios utilizam expressões como "vídeo de estupro" e "vídeo infantil" e direcionam os usuários para canais no Telegram, onde o conteúdo pode ser comprado por até 99 rúpias indianas (cerca de US$ 1 ou R$ 5,15).
Reação do governo indiano
Após a publicação da reportagem, o governo indiano ordenou que a Meta, proprietária do Instagram, desabilitasse imediatamente os anúncios e exigiu explicações em até uma semana sobre como eles foram autorizados na plataforma, segundo uma autoridade de alto escalão.
Moderação falha do Instagram
Os anúncios no Instagram passam por um processo de moderação antes de serem publicados. A BBC denunciou um dos anúncios à plataforma, que respondeu 24 horas depois afirmando que a postagem não violava as "normas da comunidade". Após a BBC solicitar comentários, a Meta afirmou ter desativado diversos anúncios e suspendido as contas responsáveis. A empresa também removeu outros anúncios, desativou mais contas e bloqueou URLs de conteúdos que violavam suas políticas.
A BBC criou uma conta com nome alternativo no Instagram para investigar o conteúdo sexualizado. Em menos de uma semana, a conta começou a receber anúncios com mulheres oferecendo chamadas por vídeo e casais nus em atos sexuais. Dias depois, surgiram anúncios de crianças com adultos em situações sexualmente sugestivas, com links para canais no Telegram.
Depoimentos de especialistas
O juiz aposentado da Suprema Corte da Índia, Madan Lokur, declarou recear que o Instagram estivesse "ganhando dinheiro ao participar de atividade criminosa". Ele afirmou que "esta é uma questão séria para que a Suprema Corte da Índia tome conhecimento por iniciativa própria e faça com que o governo tome ações contra qualquer plataforma de rede social". Lokur destacou que, embora a legislação indiana proteja as empresas de redes sociais de responsabilização por conteúdo postado por usuários, "a plataforma não pode fugir da sua responsabilidade".
Brian Boland, ex-vice-presidente do Facebook (atual Meta), disse que as descobertas da BBC o deixaram "horrorizado, mas não surpreso". Ele afirmou que o algoritmo do Instagram foi projetado para manter os usuários na plataforma, mostrando "algo mais extremo, mais tentador". Boland, que trabalhou na empresa entre 2009 e 2020, disse ter saído por acreditar que "eles não tinham nenhuma preocupação com os usuários".
Resposta da Meta e do Telegram
A Meta declarou que "a exploração infantil é um crime horrível e a Meta trabalha agressivamente no seu combate nos nossos aplicativos". A empresa negou priorizar a receita em detrimento da segurança e afirmou que, em 2025, desativou automaticamente mais de quatro milhões de contas por exibirem "sinais suficientes de comportamento potencialmente suspeito".
O Telegram declarou ter removido mais de 274 mil grupos e canais relacionados a material de abuso sexual infantil em 2026. A empresa afirmou que utiliza moderação humana e automática para erradicar esse conteúdo e que "virtualmente eliminou a divulgação de material de abuso sexual ao público na sua plataforma".
Impacto e denúncias
Em 2025, a Índia recebeu 1,9 milhão de denúncias de material de abuso sexual infantil, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, com dois milhões. Shikha Goel, diretora do Escritório de Cibersegurança do estado de Telangana, afirmou que o Instagram e o Facebook foram responsáveis pela maior parte das denúncias recebidas. No entanto, ela explicou que "se eles tiverem um bom algoritmo para rastrear material de abuso sexual infantil, obviamente serão gerados mais alertas".
A ONG Fundação Rati, com sede em Mumbai, também declarou que a ampla maioria dos relatos recebidos sobre material de abuso sexual infantil vem das plataformas da Meta. Seu diretor Siddharth Pillai afirmou que "os criminosos fazem uso da navegação integrada entre o Instagram e o Telegram para se esquivar do nosso trabalho de moderação e continuam carregando novamente o conteúdo que ajudamos a derrubar".



