A greve dos funcionários da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) paralisou as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade nesta terça-feira (4), causando transtornos para milhares de passageiros na Grande São Paulo. Desde a 0h, os trabalhadores cruzaram os braços por tempo indeterminado, exigindo garantias de emprego e a reestatização das três linhas, que foram concedidas à iniciativa privada. Sem os trens, usuários enfrentaram longas filas, ônibus lotados e gastos extras para chegar ao trabalho ou voltar para casa.
Passageiros relatam dificuldades e gastos extras
Na estação Guaianases, da Linha 11-Coral, o passageiro Jonatan, que voltava para casa em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, precisou buscar outra alternativa de transporte e pagar uma passagem a mais. "É um gasto a mais para chegar em Ferraz. Espero que se resolva o mais rápido possível, porque amanhã preciso trabalhar e levar o sustento para casa", desabafou.
Na mesma estação, um vigilante enfrentava uma longa fila para pegar um ônibus para Ferraz de Vasconcelos depois de cumprir um turno de 12 horas de trabalho. "Estou voltando para casa. Acho que a maior batalha é de quem está indo. Trabalhei a noite, de madrugada. Agora o perigo é saber se isso vai ficar assim ou se amanhã vai estar pior", afirmou.
Vinda de Nazaré Paulista, a passageira Ednalva contou que precisava chegar à Avenida Paulista, no Centro de São Paulo. "Hoje está muito difícil para os trabalhadores de São Paulo. Está muito difícil, os trens parados. Vou tentar chegar na Avenida Paulista. Não sei como, mas estou indo. O trabalhador acorda 4h30 e está aí sofrendo como sempre. Não é certo fazer isso com a população."
Estação Calmon Viana também registra filas
Em Poá, na estação Calmon Viana, que integra as linhas 11-Coral e 12-Safira, passageiros também enfrentaram longas filas para conseguir embarcar em um ônibus do Paese (Plano de Atendimento entre Empresas de Transporte), uma das alternativas oferecidas durante a greve. Brenda precisava chegar ao Morumbi, na Zona Sul da capital, e contou que teria de fazer um trajeto com diferentes meios de transporte para tentar chegar ao destino. "Vou tentar ir de Paese, tentar porque a situação está bem crítica. Está enchendo demais, Paese não está dando. Vou tentar ir até Itaquera e pegar linha 3-Vermelha para ir para o Brás. Depois do Brás pegar outra linha para ir até a Luz e pegar a linha 4-Amarela."
Entenda a greve
Os empregados da CPTM em greve reivindicam a reestatização definitiva das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, a garantia de todos os empregos na CPTM e a aprovação do Projeto de Lei (PL) nº 730/2025 na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), com o apoio do governo. O texto do PL é do deputado Guilherme Cortez (PSOL) e prevê a absorção dos funcionários da estatal por órgãos da administração pública estadual após concessões. O sindicato não deu prazo para o fim da greve.
Segundo o Sindicato dos Ferroviários da Central do Brasil (STEFZCB) – que representa os 4.700 empregados da CPTM – apenas 11% dos funcionários da CPTM nas três linhas concedidas foram transferidos para a nova empresa privada. Com apenas uma linha após concessões, a CPTM entra em reestruturação.
CPTM em reestruturação
A CPTM cuidava de sete linhas de trem na Grande SP antes do início do processo de privatização da malha férrea na gestão do ex-governador João Doria (ex-PSDB). Agora, porém, só cuida da Linha 10-Turquesa. Por isso, a estatal paulista passa por um plano de demissão voluntária para finalizar o contrato dos funcionários em comum acordo com parte dos empregados.
Segundo a própria Trivia Trens, a empresa conta atualmente com cerca de 2.400 colaboradores, dos quais 2.100 atuam diretamente na operação e manutenção das três linhas. O segmento reúne aproximadamente 11% de profissionais egressos da CPTM (cerca de 230 empregados). Os 90% de profissionais renovados que atuam na frente operacional e de manutenção das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade receberam mais de 1.300 horas de treinamento prático e teórico, segundo a empresa.
O que diz o governo de SP
Por meio de nota, a CPTM e a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) "lamentaram a decisão dos trabalhadores das Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade de manter a paralisação anunciada para esta terça-feira (04), mesmo após a apresentação de compromissos concretos e da disposição expressa da gestão estadual para avançar nas negociações".
"Na reunião realizada nesta segunda-feira (3), entre representantes do Governo e do sindicato, o Estado reiterou o compromisso com a preservação dos postos de trabalho e com a análise de projetos de lei de interesse da categoria, como a absorção dos empregados por outros órgãos públicos estaduais, a discussão sobre incorporação da Estrada de Ferro Campos do Jordão pela CPTM, e a inclusão dos trabalhadores no Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe), sistema de assistência à saúde destinado aos servidores públicos do Estado", disse.
"A paralisação não contribui para a negociação e seu único efeito será o de prejudicar milhares de trabalhadores, estudantes e passageiros que dependem diariamente do transporte ferroviário. É inaceitável que a categoria use a população como instrumento de pressão política", declarou a gestão Tarcísio.
O que diz o sindicato
O sindicato da categoria afirma que a paralisação ocorre nesta terça-feira (4) porque, "mesmo após a reunião realizada nesta segunda-feira com representantes do governo do Estado e Sindicato, não houve garantia formal de manutenção dos empregos dos trabalhadores da CPTM diante do processo de concessão das linhas ferroviárias".
"Sem esse compromisso formal, a categoria decidiu manter a greve como forma de defender os postos de trabalho e o futuro de milhares de famílias. Desde o início das discussões, o Sindicato buscou todas as alternativas de negociação, apresentando propostas e demonstrando disposição para o diálogo", disse.
"Até o momento, não houve compromisso formal que assegure o futuro dos milhares de ferroviários e de suas famílias. A greve é a última medida a ser usada pelos trabalhadores(as), que seguem unidos na defesa dos empregos, da valorização profissional e da continuidade de um serviço ferroviário de qualidade para a população paulista", declarou a entidade.
"O Sindicato reafirma que permanece aberto ao diálogo e espera que o Governo apresente, com urgência, uma proposta concreta que garanta a preservação dos postos de trabalho e permita o encerramento do movimento grevista", declarou.
Concessão das linhas
As linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade foram leiloadas pelo governo de São Paulo em março do ano passado. A vencedora da concessão foi o grupo Comporte Participações - dono da Trivia Trens e da Tic Trens - que assumiu o compromisso de investir R$ 14,3 bilhões nas três linhas, com a construção de novas estações, reformas, modernização da infraestrutura e redução dos intervalos entre os trens.
Em maio deste ano teve início a operação assistida das três linhas. Nesse período, a transferência da operação da CPTM para a Trivia Trens ocorreu de forma gradual. Na primeira fase, os funcionários da CPTM operavam o sistema enquanto equipes da concessionária acompanhavam os procedimentos. Em seguida, a Trivia Trens passou a operar as linhas sob supervisão dos profissionais da CPTM.
Problemas e retomada da CPTM
A concessionária assumiu integralmente a operação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade em 21 de julho. Porém, nos três primeiros dias de operação exclusiva da concessionária, passageiros enfrentaram falhas e atrasos nas linhas. Em 23 de julho, um curto-circuito provocou um incêndio em um dos vagões da Linha 12-Safira. Após os problemas registrados, a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) determinou que a CPTM retomasse a operação das linhas por um período de 90 dias, enquanto a concessionária realiza ajustes operacionais.
Plano de demissão voluntária (PDV)
Por meio de nota, a CPTM afirmou em 23 de julho - antes de reassumir as linhas por 90 dias - "que estava em processo de readequação e reestruturação do quadro de colaboradores, que atualmente é de 4.700 funcionários". "A iniciativa visa otimizar a eficiência operacional, alinhar equipes ao cenário de concessões e garantir a sustentabilidade das atividades da companhia. A transição foi planejada para assegurar a continuidade dos serviços prestados à população com o máximo de segurança e qualidade".
Segundo a estatal, "os profissionais estão sendo realocados de acordo com necessidades técnicas do Estado, como transferência de colaboradores para empresas e órgãos públicos vinculados ao setor de transporte de passageiros e regulação do Estado, adesões ao Programa de Demissão Incentivada (PDI) e adequação temporária de vínculos contratuais".
"Com as mudanças, a CPTM preserva um contingente altamente qualificado e mantém em pleno funcionamento estrutura administrativas, operacionais e de engenharia, manutenção e consultoria, com foco especial na Linha 10-Turquesa. A companhia reitera o compromisso com a valorização de seus profissionais, a transparência na transição e o trabalho de modernização da mobilidade urbana. Já a reestruturação da Secretaria dos Transportes Metropolitanos, publicada no Diário Oficial do Estado em fevereiro deste ano, faz parte da reforma administrativa do Estado e foi elaborada considerando o atual modelo, com maior participação do setor privado".



