O Ministério Público e a polícia de São Paulo deflagraram nesta terça-feira (21) uma operação contra uma organização financeira clandestina que movimentava dinheiro para criminosos e integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). A ação é conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
Evidências de envolvimento de oficiais da PM
Registros de áudio e planilhas financeiras apreendidas revelam a proximidade de suspeitos com oficiais da Polícia Militar de São Paulo, incluindo repasses de valores em espécie a oficiais de alta patente. Entre os militares citados estão o coronel Luiz Carlos Pereira Martins, que participava de um grupo de WhatsApp com investigados e teria se disposto a intermediar contatos; o ex-comandante-geral da PM, coronel José Augusto Coutinho; e um coronel identificado como “Patrício”, cujo nome aparece em planilhas financeiras, inclusive em uma anotação de pagamento de R$ 1 mil. Um áudio também menciona a obtenção de R$ 100 mil para pagar policiais do Deic, sem identificá-los.
Policiais citados não são alvos da operação
Os policiais citados não são alvos da operação, não foram denunciados e não são formalmente acusados no caso. As informações serão encaminhadas à Corregedoria da PM para apuração.
Promotor alertou ex-chefe da PM sobre vazamentos
O promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco, que investiga o PCC há mais de 20 anos, já havia alertado o então comandante-geral da PM, coronel Coutinho, sobre suspeitas de vazamento de operações sigilosas realizadas com apoio da Rota. Em depoimento à Corregedoria em março, Gakiya relatou que, durante a Operação Sharks, em 2020, informações teriam chegado à cúpula do PCC antes do cumprimento dos mandados, permitindo a fuga de Marcos Roberto de Almeida, o Tuta, apontado como principal integrante da facção em liberdade. Gakiya também afirmou que uma reunião entre investigadores, policiais da Rota e um informante teria sido gravada e vendida por R$ 5 milhões a Tuta. O promotor declarou ter comunicado Coutinho sobre a suspeita de que os vazamentos partiram de policiais da unidade e alertou que integrantes da Rota faziam “bicos” para empresas de ônibus ligadas ao PCC. Segundo ofício do Ministério Público Militar, não foram encontradas informações de que o então comandante tenha adotado medidas investigativas ou disciplinares.
PM preso citou Coutinho em depoimento
Em fevereiro de 2026, três PMs foram presos em um desdobramento da investigação sobre a Transwolff, empresa de ônibus apontada pelo Ministério Público como ligada ao PCC. Entre eles, o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário afirmou à Corregedoria que, em 2020, Coutinho, então major e comandante da Rota, tentou convencê-lo a permanecer na tropa mesmo sabendo de seu trabalho particular na segurança privada da Transwolff. Segundo o sargento, Coutinho teria reconhecido que havia “bandido fazendo bico” na empresa, mas também mencionado que familiares seus já haviam realizado atividades semelhantes. Romano afirmou ainda que, após deixar a Rota, Coutinho o ajudou a ser transferido para o batalhão em que queria trabalhar.
Delator do PCC reforçou suspeitas
Em 2024, o empresário Antonio Vinicius Gritzbach, conhecido como “delator do PCC”, afirmou em acordo de colaboração premiada que policiais da Rota faziam a segurança de integrantes importantes da organização criminosa. Embora não tenha citado o coronel Coutinho, as declarações reforçaram as suspeitas de que policiais da unidade mantinham relações com a facção.
Defesa de Coutinho nega envolvimento
O g1 contatou a defesa do coronel José Augusto Coutinho, que, por meio de nota, disse que "até o momento, não obteve acesso aos autos do procedimento relacionado à operação deflagrada pelo GAECO na manhã de terça-feira". A defesa reafirmou "a integridade e a correção com que o Coronel Coutinho sempre exerceu suas funções" e está certa de que "no curso do procedimento, será demonstrada a inexistência de qualquer envolvimento de sua parte nos fatos investigados".



