A presença de pombos em praças, mercados e espaços públicos de Rio Branco preocupa comerciantes que convivem diariamente com essas aves. Apesar de fazer parte da rotina da capital acreana, a concentração de pombos e o acúmulo de seus dejetos representam riscos à saúde, especialmente quando as fezes secas liberam fungos no ar.
Doenças associadas aos dejetos de pombos
As fezes secas de pombos podem conter fungos causadores da criptococose, conhecida como doença do pombo, e da histoplasmose, uma infecção pulmonar. A contaminação ocorre principalmente pela inalação de partículas durante a limpeza inadequada do local. A criptococose provoca sintomas como tosse, dor no peito, dores de cabeça, tontura e vômito, podendo evoluir para comprometimento do sistema nervoso central com rigidez na nuca e confusão mental. Já a histoplasmose pode ser assintomática ou causar febre, dor no corpo e tosse, assemelhando-se a uma pneumonia leve, com risco maior para pessoas imunossuprimidas.
Relatos de comerciantes no Mercado da Seis de Agosto
O comerciante Jamil Barbosa, que trabalha no Mercado da Seis de Agosto, no Segundo Distrito de Rio Branco, relatou que a situação chegou a ser crítica. "A clientela fugiu do mercado devido ao mercado ter sido tomado pelos pombos, muitas fezes e muito risco de saúde", afirmou. Segundo ele, a instalação de telas de proteção em todo o mercado melhorou o cenário: "Hoje o nosso mercado está telado, 90% do problema foi resolvido, graças a Deus. Mantém só uma pequena parte, mas a gente vai espantando aos poucos e, graças a Deus, vamos trabalhando com o mercado limpo".
Já a comerciante Maria José, que vende salgados há mais de 10 anos na praça ao lado da Biblioteca Pública Adonay Barbosa dos Santos, no Centro, enfrenta dificuldades para manter as aves afastadas. "É difícil. Tem cliente que reclama, mas não podemos fazer nada, a gente precisa trabalhar. Eu não tenho outro ganho, é só daqui, então eu preciso trabalhar, tenho que enfrentar tudo isso", desabafou. Ela tenta manter o local limpo e usa álcool para higienizar as mãos dos clientes, mas não encontrou uma forma eficaz de espantar os pombos. "Ensinaram que eles tinham medo da corujinha, colocamos, mas não funcionou. Jogar migalhas para eles é pior, porque aí é que eles vêm mais. Não sei o que fazer", disse.
Orientações da Vigilância Ambiental
O coordenador do Departamento de Vigilância Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), Daniel Souza, orienta que a limpeza das fezes deve ser feita com cuidado para evitar a inalação de fungos. "Na maioria das vezes, nós fazemos as nossas visitas de orientação em mercados do município, praças, escolas e até mesmo postos de saúde e UPAs, através da solicitação da própria comunidade", explicou. A recomendação é umedecer o local antes da remoção e utilizar equipamentos de proteção como luvas e máscaras. "Nosso principal papel é apenas orientar como as pessoas devem fazer diante de situações em que encontram uma grande quantidade de pombos ou outras aves que possam transmitir o fungo da criptococose", afirmou.
Caso fatal em 2023
Em novembro de 2023, a atendente de loja Sandra Silveira Bezerra, de 49 anos, morreu no Pronto-Socorro de Rio Branco devido a complicações da criptococose. A certidão de óbito registrou meningite fúngica, criptococose, edema cerebral e pneumonia. Sandra trabalhava há mais de 12 anos em uma loja na Rua Cel. Alexandrino, bairro Bosque, onde havia constante presença de pombos. O dono da loja também foi diagnosticado com a doença dois anos antes.
Segundo a filha de Sandra, Fábia Silveira Rodrigues, de 31 anos, os sintomas começaram em setembro com tontura, seguidos de fraqueza, tosse e dificuldade para respirar em outubro. Após exames, foi detectada uma mancha no pulmão. Sandra ficou internada na UPA do Segundo Distrito até 8 de novembro, quando foi transferida para o pronto-socorro. O diagnóstico de criptococose foi confirmado em 14 de novembro, mas a paciente precisou ser entubada e não resistiu.
Medidas preventivas
A Semsa recomenda não alimentar pombos em locais públicos, evitar a concentração das aves e realizar a limpeza das fezes sempre com o local umedecido. A adoção de telas de proteção, como feito no Mercado da Seis de Agosto, tem se mostrado eficaz para reduzir a presença das aves e o risco de contaminação.



