Os familiares das 62 vítimas da queda do voo 2283 da Voepass terão acesso, na quinta-feira (23), ao relatório final da investigação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão da Força Aérea Brasileira (FAB), antes da divulgação oficial do documento. Em Brasília (DF), investigadores vão apresentar as conclusões em uma reunião reservada com representantes das famílias. Só depois será realizada a coletiva de imprensa sobre o acidente ocorrido em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP).
Expectativa das famílias
Adriana Ibba, mãe da vítima mais nova da tragédia, Liz Ibba dos Santos, de 3 anos, explicou que a antecipação às famílias foi combinada com os investigadores logo após a divulgação do relatório preliminar, em setembro de 2024. Segundo ela, o momento é "aguardado ansiosamente" e ter acesso a informações sobre o que causou o acidente pode trazer "certo alívio" aos familiares das vítimas. "O nosso momento de espera está chegando ao fim. Não traz os nossos familiares, mas, de certa forma, traz um certo alívio, acalento, porque algumas respostas nós teremos a partir dessa apresentação do relatório final", completou.
Importância do relatório
A investigação do Cenipa não busca atribuir responsabilidades civis ou criminais, mas identifica os fatores que contribuíram para a queda do avião. As conclusões podem servir de base para outras investigações e também para ações judiciais relacionadas à tragédia. "Existe uma expectativa muito grande para esse momento. Acredito que serão apontadas algumas falhas sistêmicas tanto de conduta da companhia quanto, talvez, de fiscalização. Acredito que esse documento vai trazer todos os pontos", resume Adriana.
Segundo o advogado Leonardo Amarante, que representa cerca de 130 familiares das vítimas, praticamente todos os acordos individuais de indenização já foram firmados. O próximo passo será uma ação coletiva de responsabilidade civil por danos morais coletivos. "O relatório da Aeronáutica é extremamente técnico e tem um conteúdo substancial, fundamental para embasar um processo como esse", afirmou.
Procedimento de respeito
Professor do departamento de engenharia aeronáutica da Universidade de São Paulo (USP), James Waterhouse aponta que a medida do Cenipa de apresentar o relatório final aos familiares antes da divulgação oficial é comum e considerada de "respeito às famílias". "É de praxe que as famílias sejam informadas antes da divulgação de relatórios muito relevantes para que elas não fiquem sabendo por meio da imprensa. É um procedimento comum, de respeito às famílias", explicou.
Relatório preliminar
Um mês depois da queda, o Cenipa apresentou as primeiras conclusões da investigação. No relatório preliminar, os investigadores apontaram que, menos de dois minutos antes de o ATR cair, um alerta na cabine avisou a tripulação que o gelo prejudicava o desempenho da aeronave. O relatório também indicou que os pilotos comentaram um problema no sistema antigelo logo no início do voo. “Na primeira vez, durante a subida, temos o comandante, o piloto em comando, comentando através do CDR [sistema de comunicação], que existia ali uma falha do sistema de airframe”, disse, na época, o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes. O tenente-coronel também relatou que o copiloto, dois minutos antes do acidente, relatou "bastante gelo". Uma simulação sobre o momento da queda também foi apresentada pelo Cenipa durante a divulgação do relatório preliminar. Os investigadores se basearam nos dados das caixas-pretas, que apontaram a cronologia, segundo a segundo, do acidente.
Investigação criminal
Enquanto o objetivo da investigação do Cenipa é apresentar recomendações para evitar novas tragédias, cabe à Polícia Federal (PF) conduzir uma apuração criminal em paralelo para identificar possíveis culpados. No fim de junho, representantes das famílias tiveram acesso, pela primeira vez, à transcrição das conversas registradas na cabine do avião durante uma reunião na PF, em Campinas (SP). Na ocasião, os advogados disseram esperar que o inquérito seja concluído em breve e encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF), que decidirá se apresenta denúncia à Justiça. O g1 procurou, nesta terça-feira (21), a Polícia Federal para atualizar o andamento da apuração e questionou quando o inquérito vai ser concluído, mas não recebeu resposta até esta publicação.
Posição da Voepass
Em nota, a Voepass afirmou na segunda-feira (20) que vai aguardar a publicação do relatório final para qualquer novo pronunciamento. À época da tragédia, a companhia aérea comunicou que queda do voo 2283 foi "o episódio mais difícil" da história da companhia e disse seguir prestando apoio psicológico às famílias das vítimas. A empresa também declarou que colaborou com as investigações desde o início, reafirmou que sua frota "sempre esteve aeronavegável e apta a realizar voos", conforme os padrões internacionais, e sustentou que apenas o relatório final do Cenipa poderá apontar, de forma conclusiva, as causas do acidente.
Relembre o acidente
O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, fazia o voo entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu no quintal de uma casa em um condomínio de Vinhedo (SP). As 62 pessoas a bordo, incluindo 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram. Nenhum morador da residência atingida ficou ferido. A queda do voo da Voepass foi o acidente mais grave da aviação brasileira desde o desastre com o voo da TAM, em 2007.



