Doméstica resgatada após 55 anos sem salário no CE; família nega
Doméstica resgatada após 55 anos sem salário no Ceará

Uma denúncia anônima ao Disque 100 levou ao resgate de uma trabalhadora doméstica de 62 anos que permaneceu 55 anos sem receber salário, em condição análoga à escravidão, em um condomínio de luxo no Eusébio, Região Metropolitana de Fortaleza. A operação, realizada em junho, envolveu a Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT) e a Polícia Federal, que identificaram a vítima na residência da neta da primeira empregadora.

Histórico de exploração desde a infância

Segundo a auditora fiscal Maria Neuzeli, coordenadora do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM), a mãe da vítima já havia trabalhado para a mesma família até os 14 anos. Após se casar e retornar a Padre Marcos (PI), a matriarca da família empregadora buscou a ex-funcionária e suas duas filhas, incluindo a vítima, então com 7 anos. A mãe morreu e a menina foi "dada" a Aurora Dalva Bastos de Alencar Brasil. A vítima relatou que desde criança "fazia coisa de criança: lavava roupa e limpava a casa". Em 1982, aos 18 anos, foi transferida para a casa de Aurora, que havia se casado. Em 2014, passou a cuidar dos bisnetos na residência de Zaamarah Alencar Brasil Andrade, onde foi resgatada.

Condições de trabalho e resgate

No momento do resgate, a trabalhadora cuidava de duas crianças, de 11 e 7 anos, preparava refeições e realizava todas as tarefas domésticas. Mesmo sendo hipertensa e com episódios de mal-estar sob estresse, continuava trabalhando. A AFT concluiu que ela permaneceu por mais de 50 anos em relação não remunerada, com dependência econômica, privação educacional e permanência contínua no mesmo núcleo familiar, caracterizando grave violação à dignidade humana.

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Acordo garante direitos trabalhistas

Durante a fiscalização, o empregador reconheceu a prestação de serviços sem vínculo formal e admitiu remuneração irregular. Foi assinado um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com obrigações que incluem: regularização de contribuições previdenciárias desde 21 de julho de 2014; pagamento de R$ 50 mil em verbas rescisórias (dez parcelas de R$ 5 mil); aquisição de imóvel residencial de no mínimo R$ 150 mil, mobiliado; custeio de contribuições até a aposentadoria; e complementação financeira de até R$ 12 mil se ela completar 64 anos sem benefício. A AFT estima que os créditos trabalhistas totais ultrapassam R$ 1,5 milhão, considerando salários, férias, 13º, FGTS e horas extras. O TAC não impede cobrança judicial de valores não satisfeitos.

Situação atual da vítima

A trabalhadora permanece provisoriamente na casa dos empregadores por razões psicossociais, conforme a AFT: "A permanência temporária não decorre de decisão da fiscalização nem descaracteriza a situação de exploração. A prioridade é preservar a integridade física, emocional e a autonomia da vítima." Ela não sabe ler nem escrever, não tem conta bancária, nunca namorou e não possui amizades. A Secretaria dos Direitos Humanos do Ceará (Sedih) oferece acolhimento psicossocial e prepara sua reinserção social, com escolarização e autonomia. A previsão é retirá-la do lar ainda este ano.

Família nega acusações

Em nota, a família "nega com veemência as acusações" e afirma que a relação foi de "convivência, cuidado e afeto". Diz que a trabalhadora recebeu remuneração, férias, plano de saúde e contribuições previdenciárias, estando em processo de aposentadoria. A defesa alega que não houve resgate, pois ela permanece convivendo com a família. O TAC foi firmado "em respeito às instituições".

Repercussões e exonerações

A Prefeitura de Fortaleza exonerou Zaamarah Alencar Brasil Andrade, servidora pública e membro da família, do cargo na Secretaria Municipal da Conservação e Serviços Públicos, por decisão do prefeito Evandro Leitão. A Universidade Estadual do Ceará (Uece) informou que o professor temporário Tiago Silva Andrade, médico veterinário, concluiu a disciplina que ministrava e que avaliará procedimentos administrativos. A Ordem dos Advogados do Brasil no Ceará (OAB-CE) afirmou que, se confirmada participação do advogado Paulo Martins Brasil Filho em condutas incompatíveis, adotará medidas disciplinares.

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