Doméstica resgatada após 55 anos sem salário em condomínio de luxo no CE
Doméstica resgatada após 55 anos sem salário no CE

Uma mulher de 62 anos foi resgatada em condições análogas à escravidão em um condomínio de luxo em Eusébio, na região metropolitana de Fortaleza. Ela passou 55 anos trabalhando sem receber salário, cuidando de três gerações da mesma família desde os 7 anos de idade, conforme a Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT).

Histórico de exploração começou na infância

A vítima chegou à residência da família em 1971, quando tinha 7 anos, e desde então executou atividades domésticas. Sua mãe havia trabalhado para a mesma família até os 14 anos, quando se casou e voltou para Padre Marcos (PI). Lá, teve seis filhos. Anos depois, a matriarca da família exploradora foi ao Piauí buscar a ex-funcionária de volta, trazendo também duas filhas, incluindo a futura vítima.

A mãe morreu e, segundo a empregadora atual, teria "dado" a menina de 7 anos a uma das filhas da matriarca. A criança cresceu na primeira residência até 1982, quando a filha da matriarca casou e teve filhos. A empregada foi morar com ela para cuidar da casa e da nova geração. Em 2014, a neta da matriarca casou e teve o primeiro filho, e a trabalhadora foi levada para cuidar dos bisnetos.

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Rotina de trabalho e ausência de direitos

A rotina da mulher começava por volta das 4h30, preparando café e organizando as crianças para a escola. Ao longo do dia, realizava limpeza, preparo de alimentos e acompanhamento dos menores. Mesmo sendo hipertensa e apresentando mal-estar em situações de estresse, continuava desempenhando todas as atividades.

Segundo a auditora fiscal Maria Neuzeli, coordenadora do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM), a trabalhadora permaneceu mais de 50 anos submetida a ausência de remuneração, dependência econômica, privação educacional e permanência contínua no mesmo núcleo familiar desde a infância, "elementos que caracterizam grave violação à dignidade humana".

Resgate e acordo trabalhista

Após denúncia anônima e investigação, a AFT estimou que os créditos trabalhistas ultrapassam R$ 1,5 milhão, considerando salários não pagos, férias, 13º salários, FGTS, verbas rescisórias e horas extras. A empregadora atual firmou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho (MPT), assumindo obrigações como regularização de recolhimentos previdenciários desde julho de 2014, pagamento de R$ 50 mil em verbas rescisórias (em dez parcelas de R$ 5 mil) e aquisição de um imóvel residencial de no mínimo R$ 150 mil, mobiliado.

O acordo também prevê custeio das contribuições previdenciárias até a aposentadoria e complementação financeira de até R$ 12 mil se ela completar 64 anos sem acesso ao benefício. A vítima continuou na residência após o resgate, com acompanhamento psicossocial para adaptação ao "mundo externo".

Fraude no Bolsa Família

A fiscalização constatou que a vítima estava inscrita no Cadastro Único e recebia R$ 600 mensais do Bolsa Família, mas a empregadora efetuava os saques e entregava os valores à trabalhadora. A AFT identificou possível fraude contra o Estado, pois a empregadora acompanhou a doméstica na obtenção do benefício e informou que ela era "unifamília" e desempregada. Um relatório será enviado às autoridades competentes.

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