Cantor Vittim perde R$ 800 mil em vício em apostas e relata drama
Cantor Vittim perde R$ 800 mil em vício em apostas (13.07.2026)

O cantor cearense Victor Custódio Gomes, conhecido como Vittim, revelou que sofre há cinco anos com o vício em apostas e já perdeu cerca de R$ 800 mil. O valor inclui a venda de equipamentos musicais profissionais vendidos "a preço de banana" para sustentar o hábito. "Quando eu estava no pique do vício mesmo, eu vendi meus equipamentos, que eram de qualidade, equipamentos profissionais. Eu vendi a preço de banana pra poder alimentar o vício, porque eu não conseguia me segurar", lamentou o artista em entrevista ao g1.

Vício começou em casas esportivas e migrou para o online

Victor, de 23 anos e morador de Ipu, no interior do Ceará, iniciou as apostas em locais físicos de apostas esportivas. Depois, migrou para plataformas online como o "Jogo do Tigrinho". "Como evoluiu muito, essas casas de aposta, facilitou mais as coisas. Eu comecei: ‘Posso ir pelo celular mesmo, colocava o dinheiro na conta, no Pix, e colocava lá nas plataformas, nos jogos, para eu jogar, porque isso tornava mais fácil pra mim’", relembrou. "No começo foi muito bom, a gente ganha, ganha muito, muito, muito… Mas depois, quando começa a perder, você perde de uma vez", relatou.

O vício afetou compromissos profissionais e pessoais. "Afetou tanto meus músicos como os compromissos que eu tinha. Eu gastava o dinheiro dos compromissos e colocava tudo em jogo. Às vezes deixava os meninos [músicos] sem receber [o pagamento] para pegar o dinheiro e jogar", contou. "Todo lucro do meu show eu pegava e já gastava. Terminava meu show, pegava e ia jogar."

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Perda de controle e busca por ajuda

O artista percebeu que perdeu o controle antes de uma viagem ao Rio de Janeiro para uma turnê. "Eu tinha planejado, tinha programado tudo. Eu estava com dinheiro pra viajar tudo certinho, só que aí eu tive a ganância de querer mais, possuir mais", explicou. "Aí acabou que eu peguei o dinheiro dessa viagem e acabei jogando. Aí que veio na minha cabeça: ‘isso é um vício’", lembrou. Ele viajou sem o dinheiro reservado e continuou apostando com os ganhos dos shows.

Ao perceber que precisava de ajuda, Victor revelou o vício para a namorada, familiares e colegas de trabalho, e buscou apoio psicológico. Ele conta com o apoio da namorada, de um primo e de músicos da banda, mas lamentou o afastamento do irmão, que era seu produtor. "Isso impactou bastante na minha vida, porque ele era a minha base. E hoje ele está afastado de mim por conta desses problemas", disse. Um primo conseguiu cancelar o CPF de Victor nas plataformas de apostas, e ele evita ficar muito tempo com o celular.

Jogadores Anônimos e tratamento no SUS

No Ceará, o grupo Jogadores Anônimos (JA) oferece apoio a pessoas com transtorno de jogo. As reuniões presenciais ocorrem quatro vezes por semana em Fortaleza, no Centro e na Praia de Iracema, além de encontros virtuais. Um representante do JA, que teve a identidade preservada, explicou que o grupo segue um programa de doze passos, similar ao de Alcoólicos Anônimos. "Nosso principal objetivo é parar de jogar. A gente chama de terapia de espelho. A gente aprende com o testemunho do outro", destacou. O grupo disponibiliza uma linha de ajuda pelo telefone 85 98929-5529.

O psicólogo Magnum Freire Nobre explicou que a dependência em apostas ativa as mesmas vias cerebrais de recompensa que o álcool e as drogas, afetando o sistema dopaminérgico. "O cérebro do jogador passa pelo mesmo processo de tolerância. O que é a tolerância? É precisar de mais estímulo para sentir o mesmo prazer", disse. Ele destacou que a "perseguição do prejuízo" é característica: quando a pessoa perde, joga novamente para tentar recuperar o dinheiro. O primeiro passo para o tratamento é admitir a impotência e buscar uma rede de apoio.

O SUS oferece suporte nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e por teleatendimento, acessível pelo aplicativo Meu SUS Digital. Dados do Ministério da Saúde indicam que, em 2024, o SUS registrou 6.157 atendimentos presenciais relacionados a jogos e apostas.

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Regulamentação e preocupação governamental

Em 10 de janeiro, o Ministério da Fazenda publicou portaria que estabelece novas regras para publicidade de apostas online, exigindo advertências semelhantes às de cigarros e bebidas alcoólicas. No Ceará, o Programa Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor (Decon) lançou nota técnica em março de 2026 analisando os impactos das apostas online, apontando práticas abusivas como publicidade enganosa e obstáculos ao saque. Uma pesquisa do Instituto Opnus, encomendada pelo Diário do Nordeste, ouviu 4.000 pessoas e revelou que 22% dos homens e 10% das mulheres já apostaram, com maior incidência entre jovens de 16 a 24 anos (27%).