Uma jovem de 22 anos denunciou que sua filha morreu apenas cinco minutos após o nascimento no Hospital Regional Justino Luz, em Picos (PI), em janeiro de 2026. Segundo a defesa da mãe, a médica responsável pelo plantão noturno teria insistido no parto normal por cerca de sete horas e recusado o pedido da paciente por uma cesárea de emergência.
Trabalho de parto prolongado e ausência da médica
De acordo com a advogada Thaysa Soares, que representa a mãe, a jovem deu entrada no hospital às 17h do dia 3 de janeiro. Inicialmente, foi atendida por um médico que avaliou que ela tinha condições para parto normal. Às 19h, a médica denunciada assumiu o plantão. A advogada relata que a profissional esteve ausente durante grande parte do trabalho de parto, e que as contrações da mãe começaram a se espaçar, com diminuição dos batimentos cardíacos da bebê.
Por volta das 21h, a paciente, exausta, pediu à equipe que realizasse uma cesárea, mas o pedido foi negado pela médica. “Depois de quase quatro horas que a médica tinha entrado no plantão, ela compareceu, mas não autorizou a cirurgia. Manteve a afirmação sempre ríspida, e a justificativa dela foi que a expulsão demorava mesmo”, afirmou Thaysa ao g1.
Nascimento e morte em cinco minutos
A bebê nasceu às 0h15 do dia 4 de janeiro, sem chorar e com a cabeça roxa, apresentando sinais de esmagamento. Cinco minutos depois, às 0h20, a morte por parada cardiorrespiratória e insuficiência respiratória foi declarada. A advogada afirma que a médica não estava presente no momento do parto e só compareceu para suturar a mãe, comentando que a achava “forte” após o trabalho de parto.
A jovem permaneceu no quarto do hospital até as 10h, sem contato com a médica. Para ir ao velório da filha, precisou da intervenção da advogada junto à assistência social.
Boletim de ocorrência arquivado por delegado irmão da médica
Em 5 de janeiro, a defesa fez denúncia à ouvidoria do hospital. Um mês depois, a família registrou boletim de ocorrência na 1ª Delegacia de Picos. Contudo, segundo Thaysa, três dias depois o BO foi arquivado pelo delegado que estava substituindo o titular durante as férias. “Para nossa surpresa, o delegado que estava assumindo as férias desse delegado era irmão da médica”, disse a advogada.
O delegado-geral Luccy Keyko informou ao g1 que tomou conhecimento do arquivamento e encaminhou a informação à Corregedoria para apurar possível infração administrativa. Afirmou ainda que já há procedimento instaurado para investigar as circunstâncias dos fatos “em toda a extensão, com o máximo de isenção e rigor técnico”.
O atual responsável pela investigação, delegado Rodrigo Morais, declarou que o caso será conduzido com imparcialidade. “Vamos ouvir todos os envolvidos, incluindo a vítima, testemunhas, profissionais de saúde e a médica. Também vamos solicitar o prontuário médico e aguardar a conclusão dos procedimentos no CRM”, afirmou.
Posicionamento do hospital e órgãos
O Hospital Regional Justino Luz informou que um comitê interno multidisciplinar apurou o caso e concluiu que a conduta da equipe esteve “em conformidade com os princípios técnicos e as diretrizes de boas práticas assistenciais”. O desfecho foi classificado como “evento adverso de natureza clínica, sem correlação direta com negligência, imprudência ou imperícia profissional”.
O Conselho Regional de Medicina do Piauí (CRM-PI) afirmou que não se manifesta sobre processos em segredo judicial. O Ministério Público do Piauí (MPPI) informa que investiga possíveis falhas no serviço de obstetrícia do hospital e solicitou ao CRM a abertura de sindicância. Sobre o arquivamento do BO, o MP disse que a Promotoria de Justiça responsável pelo controle externo da atividade policial adotará as providências cabíveis.
A advogada Thaysa Soares também fez denúncias ao hospital, ao CRM e ao MP. Ela espera que a investigação avance e que a família obtenha justiça.



