Banho de óleo em aviação: entenda a tradição que matou engenheiro no PR
Banho de óleo em aviação: tradição que matou engenheiro no PR

O chamado 'banho de óleo' é um ritual tradicional em escolas de aviação no Brasil para celebrar marcos na formação de pilotos, como o primeiro voo solo. A prática voltou a ser debatida após a morte do engenheiro Gustavo Henrique Lara, de 27 anos, que sofreu uma grave reação alérgica após participar da cerimônia em Ponta Grossa, no Paraná. Segundo a Polícia Civil, Gustavo recebeu um banho com óleo usado em motores de aeronaves após concluir uma etapa da formação. O aluno passou mal logo em seguida, sofreu uma reação anafilática — a forma mais grave de reação alérgica — e morreu no hospital. O caso é investigado.

O que é o 'banho de óleo'?

Ao g1, Andrea Bon, ex-comissária de bordo por 12 anos e proprietária da escola de aviação civil TO FLY, explica que a tradição funciona como um 'batismo' na carreira de piloto. Após atingir um marco importante, o aluno recebe um banho com óleo de motor de aeronave, normalmente aplicado por instrutores ou colegas, como forma de comemorar a conquista. A prática é mais conhecida após o primeiro voo solo, quando o estudante decola e pousa sozinho pela primeira vez, mas também pode ocorrer em outras etapas da formação. 'Geralmente acontece quando a pessoa alcança algo novo na carreira. No caso dos pilotos, é comum após o primeiro voo solo ou quando mudam de categoria, como a passagem de piloto privado para piloto comercial. Entre os mecânicos também existe essa tradição', afirmou.

Tradição condenada por autoridades

Segundo Andrea, apesar de ainda existir em alguns aeroclubes, o 'banho de óleo' é alvo de críticas de pilotos e especialistas. 'Atualmente, essa prática tem sido bastante condenada pelas autoridades aeronáuticas. Quando acontece, costuma ser de forma mais discreta. Os óleos utilizados nos motores contêm componentes químicos que podem causar dermatites, reações alérgicas e outros problemas de saúde. É uma tradição, mas que também apresenta riscos.' Ela afirma que não participou de uma cerimônia desse tipo durante o período em que trabalhou na aviação comercial. 'Entrei na TAM, atual LATAM, em 2005. Por ser uma empresa grande e consolidada, essa prática já não acontecia. Mas, conversando com pessoas de aeroclubes e escolas de aviação, sabemos que ela ainda existe em alguns lugares.'

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O caso no Paraná

Segundo a investigação, Gustavo Henrique Lara participou do ritual na noite de quinta-feira (16), após concluir uma etapa da formação aeronáutica. Depois do banho de óleo, ele apresentou um grave comprometimento de saúde. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) informou que o aluno sofreu uma reação anafilática, seguida de uma crise convulsiva e três paradas cardiorrespiratórias. As duas primeiras foram revertidas, mas ele não resistiu à terceira. O instrutor responsável por jogar a substância foi preso em flagrante por suspeita de homicídio culposo, quando não há intenção de matar, e liberado após pagamento de fiança. A Polícia Civil investiga a composição do óleo utilizado, a quantidade aplicada, as regiões do corpo atingidas e se há relação entre o ritual e a morte do aluno.

Riscos à saúde

Após a morte de Gustavo, a discussão sobre o ritual ganhou força na comunidade aeronáutica. Especialistas ouvidos pelo g1 defendem que o simbolismo da tradição pode ser preservado sem o uso de óleo de motor, substituindo a prática por alternativas como banho de água ou outras formas de celebração. A dermatologista Rafaela Salvato, da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), alerta que o principal problema é que o produto utilizado nesses rituais foi desenvolvido para funcionamento de motores aeronáuticos, e não para contato com o corpo humano. 'O óleo de motor aeronáutico é um produto industrial, formulado para suportar temperatura e atrito dentro de uma máquina, não para tocar tecido vivo.' A médica acrescenta que o maior temor é justamente a possibilidade de uma reação alérgica grave e imprevisível. Segundo ela, a anafilaxia não depende da quantidade de produto utilizada e pode ocorrer mesmo em pessoas sem qualquer histórico conhecido de alergias. Salvato destaca ainda que o próprio contexto do ritual pode dificultar o reconhecimento dos primeiros sinais de uma emergência médica.

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O que diz a Anac

Em nota, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) lamentou a morte de Gustavo Henrique Lara e afirmou que produtos químicos aeronáuticos, como óleos e lubrificantes de aviação, não devem, em hipótese alguma, entrar em contato com a pele, conforme orientam os próprios rótulos desses materiais. A agência alertou que o uso desses produtos em rituais de celebração traz riscos à saúde e pode, inclusive, levar à morte. A Anac também pediu que escolas de aviação, aeroclubes e demais organizações de instrução revejam esse tipo de tradição. Segundo a agência, a segurança deve ser sempre a prioridade na aviação e qualquer celebração precisa ser realizada de forma responsável, sem expor alunos, instrutores ou terceiros a riscos.