Famílias abandonam casas após intimidações
Moradores da comunidade Barreirão, no bairro Cajazeiras, em Fortaleza, deixaram suas casas entre a noite de quarta-feira (29) e a manhã de quinta-feira (30) após ameaças explícitas de integrantes da facção criminosa Comando Vermelho (CV). A Polícia Militar acompanhou a retirada de algumas famílias, que ocorreu sob forte tensão. Segundo apuração da TV Verdes Mares, criminosos enviaram mensagens afirmando que monitoram toda a comunidade e nomearam cinco moradores como alvos, acusando-os de apoiar um grupo rival. "Se não sair fora do Barreirão, o próximo alvo vai ser qualquer um que eu falei aí", dizia a mensagem.
Pelo menos duas famílias já haviam saído da comunidade no fim da tarde de quarta-feira. Uma delas não conseguiu levar móveis ou outros pertences, abandonando tudo às pressas. A situação gerou medo generalizado: ruas que antes eram tomadas por crianças brincando agora estão vazias. Uma moradora que preferiu não se identificar contou à TV Verdes Mares que também deseja partir, mas não tem para onde ir. "Pode acontecer a qualquer um, apesar de eu ser uma cidadã trabalhando, eu não escuto, não fico sabendo de nada… Mas eu tenho medo", desabafou. Ela acrescentou que prefere não compartilhar o medo com parentes de outra cidade. "Eu gosto muito daqui. Gosto mesmo, mas mexe com a gente. Vou ficar até onde Deus permitir e Maria também, que eles me mostrem uma luz […] Mas eu não quero sair com reforço de polícia, eu não devo nada a ninguém."
Disputa entre facções na região
O temor se intensificou após a divulgação de um vídeo gravado na comunidade na noite de quarta-feira, no qual membros da facção rival Massa aparecem pichando sobre a sigla do Comando Vermelho. O vídeo foi legendado com a frase "Nossa bandeira jamais será vermelha", indicando uma tentativa de tomada do território. A disputa entre as facções Comando Vermelho e Massa tem se acirrado em várias regiões de Fortaleza, resultando em homicídios e deslocamentos forçados. Na comunidade Barreirão, a situação já vinha sendo monitorada pela polícia, mas as ameaças diretas a moradores específicos aceleraram a fuga.
Polícia investiga e reforça importância de denúncias
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará informou que a Polícia Civil realiza diligências sobre o deslocamento forçado registrado na região. Todas as ações que envolvem organizações criminosas são investigadas pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), que já efetuou prisões de forma constante. A secretaria também reforçou a importância do registro de Boletim de Ocorrência para que os casos possam ser devidamente apurados. O 13º Distrito Policial acompanha o caso.
Ao menos duas famílias já saíram, mas o número pode ser maior, já que muitos moradores não registraram a saída. A polícia orienta que quem receber ameaças ou presenciar ações criminosas denuncie anonimamente pelo Disque-Denúncia (181). A moradora que ainda resiste em sair resumiu o dilema: "Vou ficar até onde Deus permitir". A comunidade segue sob vigilância, mas a sensação de abandono e medo persiste entre os que permanecem.



