Aliciamento infantil tem estrutura de facções, diz polícia
Aliciamento infantil tem estrutura de facções, diz polícia

Uma investigação do Núcleo de Operações e Articulações Digitais (Noad) da Polícia Civil de São Paulo revelou que as organizações criminosas dedicadas ao aliciamento digital e à exploração sexual online de crianças e adolescentes no Brasil funcionam com uma estrutura hierárquica e uma divisão de tarefas comparáveis às de facções. A conclusão foi divulgada pelo jornal Folha de S.Paulo e confirmada pela GloboNews.

Criado há um ano e meio, o Noad já mapeou cerca de 1,3 mil vítimas, conforme a delegada-chefe do núcleo, Lisandréa Salvariego Colabuono. Quase a totalidade das vítimas – 96% – são meninas com idades entre 6 e 15 anos, localizadas em praticamente todos os estados brasileiros e também no exterior. Os crimes incluem exploração sexual, indução ao suicídio e maus-tratos e sacrifício de animais de estimação.

Estrutura semelhante a facções

Segundo a delegada, o nível de organização é tão alto que as investigações permitem tipificar os grupos como organização criminosa. “Eles estão cada vez mais organizados, a tal ponto que as nossas investigações conseguem tipificar como organização criminosa”, afirmou. De acordo com a Polícia Civil, as funções de cada cargo são muito exatas e detalhadas, e a ascensão na hierarquia exige o cumprimento de desafios, a maioria ligada à prática de crimes.

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  • Líder: quem cria os servidores e promove integrantes
  • Administrador: escolhe quem participa dos servidores
  • Moderador: controla as etapas de aliciamento e segue uma “cartilha” interna sobre o modus operandi dos abusos
  • Orador: fala com a vítima, dá ordens – como automutilação, sacrifício de animais ou suicídio – ou comete o estupro virtual

Como as vítimas são aliciadas

A cooptação geralmente começa em aplicativos, simulando um namoro ou amizade virtual. Após ganhar a confiança da vítima, o agressor migra para outra plataforma. Quando a criança envia foto ou vídeo íntimo, fica na mão do criminoso. Antes mesmo desse envio, o agressor já sabe a escola que a vítima frequenta, a igreja e o local de trabalho dos pais. A partir daí, a vítima é coagida e ameaçada a se cortar online, maltratar animais da própria família e sofrer estupro virtual. A delegada relata que o suicídio infanto-juvenil cresceu muito nesse contexto.

Entre as plataformas mais usadas para o aliciamento estão Discord, Telegram e Roblox. Na avaliação da Polícia Civil, há uma falha severa no monitoramento e na moderação dos conteúdos produzidos e compartilhados em servidores criados pelos criminosos. Segundo as investigações, os autores desses crimes são adolescentes de 11 a 17 anos, em busca de reconhecimento online e afirmação social.

Números das investigações e caso recente

Desde a criação do Noad, 624 alvos foram presos ou internados, e outros 2 mil seguem em monitoramento contínuo. Um dos casos recentes interceptados pela Polícia Civil de São Paulo envolveu uma menina de 9 anos, coagida durante uma transmissão ao vivo a ingerir medicamentos para tirar a própria vida. “A mãe não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Foi aí que conseguimos impedir que o pior acontecesse”, disse Lisandréa. Ela completa: “Realmente os pais não têm a menor ideia de que quando eles dão um celular para o filho, estão dando a porta de entrada para os crimes mais perversos que existem hoje”.

Anuário Brasileiro de Segurança Pública revela avanço dos casos

Os registros de produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil cresceram 25% no Brasil em 2025, de acordo com a análise de registros policiais publicada no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 23 de julho. É a primeira vez que o estudo avaliou esse tipo de crime, revelando uma violência que ocorre majoritariamente no meio digital. Os pesquisadores chamam atenção para um dado: um terço das ocorrências envolve autores adolescentes.

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Cauê Martins, coordenador de Infância e Juventude do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, afirma que os dados sobre a idade dos autores mostram uma característica específica: vítimas e algozes são, muitas vezes, adolescentes. “A gente percebe que é uma violência entre pares”, diz o pesquisador.

Perfil dos autores

Segundo o estudo, em 34,2% dos casos – o equivalente a 1 a cada 3 – os autores são adolescentes. Em 86,5% dos registros havia apenas autores do sexo masculino. Casos com apenas autoras representaram 9,1%, e 4,4% dos casos tiveram autoria múltipla. O relatório destaca que o envolvimento de adolescentes está associado à ampliação do acesso às redes sociais, plataformas de mensagens e comunidades virtuais que difundem misoginia, sexualização precoce, discursos de dominação masculina e outras formas de radicalização online.

O que dizem as plataformas

Em nota ao g1, o Telegram afirmou ter tolerância zero para conteúdos ou atividades de exploração ou violência contra menores, com remoção sempre que identificado e monitoramento proativo das partes públicas da plataforma. O Roblox listou medidas de segurança como verificação de idade por estimativa facial, separação por faixas etárias, chat desativado para crianças de 5 a 8 anos, proibição de envio de fotos, vídeos e links externos, filtros inteligentes e monitoramento 24 horas por dia. O Discord informou que exige idade mínima de 13 anos, proíbe condutas que sexualizem crianças, utiliza ferramentas de machine learning e PhotoDNA, além de integrar iniciativas como Tech Coalition, Lantern e ROOST.