O passeio para observar baleias em Ilhabela, no Litoral Norte de São Paulo, terminou com um registro inesperado para a turista Brenda Beatriz, auxiliar de coordenação pedagógica e moradora do Rio de Janeiro. Ao revisar os vídeos gravados durante a atividade, ela percebeu que havia filmado não uma baleia, mas um tubarão-mangona (Carcharias taurus) saltando para fora da água. O flagrante ocorreu na região do bairro Borrifos, no lado sul da ilha, nesta sexta-feira (10).
Descoberta inusitada durante revisão de vídeos
O vídeo foi feito em uma área onde as embarcações costumam parar para acompanhar o aparecimento das baleias durante a temporada de migração dos cetáceos. "Na hora, até achei que fosse golfinho, porque foi muito rápido. Subiu e sumiu", disse Brenda ao g1. Segundo ela, a descoberta só aconteceu depois, quando ela foi checar o que tinha filmado.
"Quando terminou, fui ver os vídeos e puxei o zoom pra ver o que tinha pulado, porque é muito rápido. Aí vi que era um tubarão", afirma a auxiliar de coordenação pedagógica. O tubarão-mangona é considerado criticamente ameaçado de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Turista viajou especialmente para observar baleias
A turista contou que viajou pela primeira vez para Ilhabela justamente para aproveitar a temporada de observação de baleias. "Estou de recesso no trabalho e planejei essa viagem para Ilhabela. É minha primeira vez aqui e estava muito animada para temporada de baleias." Ela disse que ficou surpresa com o registro. "Fiquei em êxtase porque nunca imaginei ver tubarão, ainda mais com ele saindo para fora da água. Foi incrível demais. É uma sorte que não tem explicação", declarou Brenda.
Empresário confirma raridade do comportamento
O passeio foi realizado por uma empresa de Ilhabela que organiza saídas náuticas para observação de cetáceos durante esta época do ano. Segundo o proprietário, Leonardo Radi, a presença de tubarões na região não é incomum, especialmente de tubarões-martelo. Ele estava no barco no momento do avistamento. De acordo com ele, o animal filmado por Brenda é provavelmente um tubarão-mangona, identificado pelas características da arcada dentária visíveis nas imagens.
O empresário afirmou que, apesar de a espécie ser facilmente encontrada na região, nunca havia presenciado um comportamento como o registrado pela turista. "Sabemos que o (tubarão) mangona existe no litoral (norte) e há uma quantidade considerável da espécie, mas saltando foi a primeira vez", disse aquaviário e empresário Leonardo Radi. Radi afirmou que há poucos dias viu um tubarão-tigre no mar, considerado um avistamento raro no litoral paulista.
Biológo explica raridade e comportamento da espécie
De acordo com o biólogo Renato Freitas, professor doutor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o tubarão-mangona é um animal tranquilo, mas raro de ser visto atualmente. Ele chega a três metros de comprimento. "O tubarão-mangona é um animal criticamente ameaçado de extinção, muito difícil de observar em ambiente natural, mas ele tem esse comportamento de subir na superfície. É uma coisa que ninguém sabe ainda, abre a boca assim, parece que toma um ar. Ele é um tubarão muito tranquilo, embora tenha uma cara ameaçadora porque ele fica com os dentes para fora", contou.
"Aqui no Brasil, ocorre do Espírito Santo até para baixo, até a Patagônia, na Argentina. É um bicho bastante raro hoje em dia. Não era tanto antigamente, mas é um bicho bem raro hoje", acrescentou. Renato Freitas é coordenador do projeto de extensão Tubas e Raias, que busca desmitificar o estigma de que tubarões e raias são animais nocivos a seres humanos.
Refúgio de Alcatrazes é área de reprodução
O Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, no litoral norte de São Paulo, é utilizado pelo tubarão-mangona (Carcharias taurus) como área de reprodução. A constatação faz parte de um estudo que registrou machos adultos, fêmeas com marcas de acasalamento e uma fêmea grávida na unidade de conservação, indicando que o local é usado em fases críticas do ciclo de vida da espécie.



