Tribos rivais na medicina brasileira: Rockefeller vs Alma-Ata
Tribos rivais na medicina brasileira: Rockefeller vs Alma-Ata

Na economia, monetaristas e estruturalistas se digladiam; na psicanálise, seguidores de Freud, Jung e Lacan trocam farpas. Na saúde brasileira, o embate se deu entre duas tribos: a Rockefeller-Kellogg e a Alma-Ata.

Origens das tribos

A partir dos anos 1950, médicos brasileiros se aproximaram da medicina de primeiro mundo, com apoio das fundações Rockefeller e Kellogg, que financiaram bolsas, viagens e pesquisas. Essa influência trouxe ao Brasil a reforma do ensino médico americano associada a Abraham Flexner, fortalecendo a ciência na medicina. Formou-se um núcleo duro de convencidos, a tribo Rockefeller-Kellogg.

Em contrapartida, a catástrofe sanitária do Rio de Janeiro no início do século 20 gerou um movimento robusto de saúde pública, liderado por Oswaldo Cruz. O divisor de águas foi a Conferência de Alma-Ata, em 1972, organizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que destacou a importância crítica da atenção primária. Essas ideias se disseminaram, e equipes do Ministério da Saúde abraçaram os cânones da tribo Alma-Ata, também chamada de “esquerda sanitária”.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

O modelo único de universidade de pesquisa

Inicialmente, as tribos atuavam em esferas distintas: a Rockefeller cuidava da qualidade do ensino médico e da clínica; a Alma-Ata, da saúde pública, evoluindo para o SUS. No entanto, uma resolução de N. Sucupira e V. Chagas no Conselho Federal de Educação adotou o modelo da universidade de pesquisa, idealizado por Wilhelm Humboldt e aperfeiçoado nos EUA. O Brasil passou de zero a um país que publica mais pesquisas que França ou Espanha.

Porém, o erro foi tornar esse modelo obrigatório para todas as instituições. Nos EUA, apenas 5% das universidades adotam esse formato; no Brasil, foi entronizado como único: campus grandioso, todas as áreas do conhecimento, professores mestres e doutores em tempo integral, indissociabilidade entre ensino e pesquisa. Pouco mais de dez universidades federais têm equipes capazes de produzir pesquisas consistentes, mas todas operam com custos extravagantes.

Expansão do ensino médico e o papel do setor privado

As pressões por mais vagas cresceram: quadruplicou o número de jovens concluindo o ensino médio e sonhando com um diploma. O modelo único, porém, é caro demais. Se todos os alunos do setor privado estivessem em federais, os gastos do Ministério da Educação (MEC) com ensino superior quintuplicariam, superando o orçamento do MEC ou do Ministério da Saúde.

Como não se permitem escolas de Medicina fora de universidades de pesquisa completas, a expansão das federais foi modesta. Em 1960, havia 25 escolas médicas públicas e nenhuma privada. Hoje, são 99 públicas e 395 privadas. A solução encontrada foi permitir a entrada do setor privado, que calibra seu ensino conforme o que os alunos podem pagar. Muitos alunos estão pouco interessados em qualidade, e o MEC não impôs padrões mínimos.

Paradoxos e alianças inesperadas

A grande expansão atende aos sonhos da tribo Alma-Ata: muitos médicos, mesmo mal formados, podem melhorar a saúde do povo. Ganharam espaço os empresários do ensino e a tribo Alma-Ata. Vitória simultânea de dois adversários históricos. O SUS decidiu abrir espaço em suas UPAs para os internatos das escolas privadas, resolvendo o maior gargalo: vagas e financiamento para internos. É a esquerda sanitária de mãos dadas com os ogres capitalistas.

Dúvidas remanescentes

Restam perguntas: 1) Como o internato em UPAs oferece formação limitada, os graduados serão piores médicos? 2) A saúde dos brasileiros ganha ou perde com essa solução? Um médico fraco pode ser melhor que nenhum. 3) O MEC continuará incapaz de estabelecer um limiar de desempenho para os graduados? 4) Consolidar-se-ão duas categorias de médicos?

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar