Menor que uma bola de futebol e exclusivo da fauna brasileira, o tatu-bola marcou a Copa do Mundo de 2014 no Brasil ao inspirar o mascote oficial, Fuleco. Já naquela época, o animal estava ameaçado de extinção. Mais de dez anos depois, próximo da Copa de 2026, a situação permanece crítica.
Perda de habitat e ameaças constantes
De acordo com a Associação Caatinga, o tatu-bola perdeu cerca de 50% de sua área de ocorrência natural nos últimos 27 anos. O desmatamento e a caça continuam sendo as principais ameaças. A escolha como mascote em 2014 visava promover sua preservação, e houve avanços, mas o cenário ainda é preocupante.
Novo ciclo do PAN Tatá
Para reverter o quadro, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) iniciará um novo ciclo do PAN Tatá — Plano de Ação Nacional para a Conservação do Tamanduá-bandeira, Tatu-canastra e Tatu-bola. Samuel Portela, coordenador de Conservação da Biodiversidade da Associação Caatinga, explica que o plano reúne especialistas de todo o país e traça objetivos gerais e específicos para cada espécie.
“O PAN Tatá tem várias ações relacionadas à redução da perda de habitat, como criar novas unidades de conservação, ampliar as já existentes, restaurar áreas degradadas, combater incêndios florestais e reduzir atropelamentos. A partir das ameaças identificadas, traçamos uma lista de objetivos e ações”, detalha Portela.
Classificação de vulnerável
Atualmente, o tatu-bola está classificado como vulnerável à extinção, enfrentando alto risco de desaparecer da natureza. Outros animais como a anta, o lobo-guará e a onça-pintada estão na mesma situação, conforme o ICMBio. Um relatório do instituto aponta que 1.264 espécies estão ameaçadas de extinção no Brasil, principalmente devido a atividades humanas como expansão agrícola, pecuária, urbanização, poluição e mineração.
Ceará em situação alarmante
No Ceará, o cenário é ainda mais grave. O tatu-bola é classificado como criticamente ameaçado no estado. “Há pouquíssimos registros. Tivemos uma ocorrência em 2023 em Crateús e outra no Cariri. Quase se pode dizer que está extinta no Ceará, com maior ocorrência no Piauí e na Bahia”, afirma Portela. A caça e a perda de habitat são os principais motivos.
Papel ecológico e características
Além de inspirar um carismático mascote, o tatu-bola funciona como um “termômetro da natureza”. Sua ausência indica degradação ambiental. “Ele é uma espécie bandeira ou guarda-chuva. Se está ali, o ambiente está bom”, explica Portela. O Tolypeutes tricinctus, conhecido como tatu-bola, pode pesar até dois quilos e se enrola formando uma bola para se proteger. Alimenta-se de cupins, insetos e frutos. Seu hábito noturno e a formação de grupos durante o acasalamento facilitam a captura por caçadores.
Caso encontre o animal em seu habitat, deve-se deixá-lo em paz. Se estiver fora do ambiente natural, é preciso contatar o ICMBio ou Ibama para recolhimento e destinação adequada.
Avanços desde 2014
Portela, que lutou pela escolha do tatu-bola como mascote, destaca que a campanha teve Crateús como base. Após a eleição, o animal virou símbolo da cidade e ganhou uma escultura na praça central. O maior avanço foi a criação de áreas protegidas que somam 24 mil hectares, resultando nos Parques Estaduais do Cânion do Rio Poti (no Piauí) e do Cânion Cearense do Rio Poti.
Com o novo ciclo do PAN Tatá, espera-se novas estratégias. “Ainda estamos engatinhando. Precisamos de mais apoio, políticas públicas focadas na ampliação de unidades de conservação”, alerta Portela.
Legado e futuro
Fuleco caiu no gosto popular, com uniforme da Seleção e carapaça azul. Doze anos depois, o Brasil se prepara para outra Copa, com três mascotes: águia careca, jaguar e alce. “É bom trazer o assunto de volta, lembrar que o tatu-bola existe e é exclusivamente nosso. O recado é cuidar do nosso habitat e das florestas”, conclui Portela.



