Suspensão da vacina da dengue: prudência, não pânico
Suspensão da vacina da dengue: prudência, não pânico

A suspensão preventiva da aplicação da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan não é motivo para pânico. Muito ao contrário. Trata-se de uma demonstração inequívoca de que o sistema de vigilância sanitária do País está funcionando exatamente como se espera.

O Ministério da Saúde decidiu interromper temporariamente a campanha após o registro de 42 eventos adversos entre as 500 mil pessoas já imunizadas, dos quais 3 foram classificados como graves, 2 deles resultando em morte. Embora ainda não haja confirmação do nexo causal entre o imunizante e essas ocorrências, a pasta fez o certo, em nome da prudência, e suspendeu a aplicação até que todos os estudos necessários sejam concluídos.

É precisamente assim que devem atuar as autoridades sanitárias. O cuidado com a vida dos brasileiros, o bem mais precioso a ser protegido pelas vacinas, exige que quaisquer eventos fora do padrão sejam rigorosamente investigados, e com transparência e serenidade, não alarmismo. É exatamente o que está acontecendo.

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Os alarmistas (e negacionistas) tentam transformar as fatalidades em prova de que as vacinas seriam inseguras. Como este jornal já sublinhou um sem-número de vezes durante a pandemia, esse discurso é tão falacioso quanto perigoso. A bem da verdade, a suspensão temporária da aplicação da vacina contra a dengue demonstra a robustez dos mecanismos da chamada farmacovigilância, que monitoram os efeitos dos imunizantes já em circulação.

Não se pode esquecer que os estudos clínicos não terminam quando uma vacina passa pelo longo trâmite regulatório e chega aos postos de saúde. Após as fases iniciais de pesquisa e os ensaios clínicos que permitem comprovar a segurança e a eficácia, inicia-se aquilo que os especialistas chamam de testes de Fase 4: o acompanhamento do imunizante agora aplicado em populações muito mais numerosas e heterogêneas. É justamente nessa etapa que podem surgir eventos mais difíceis de serem detectados em grupos menores de voluntários.

No caso da vacina do Butantan, os estudos clínicos envolveram cerca de 11 mil participantes. A aplicação em meio milhão de pessoas ampliou sobremaneira a capacidade de observação dos efeitos. Não há nada de extraordinário nisso, tampouco no fato de que tenham surgido eventos adversos que merecem apuração. O extraordinário seria ignorá-los.

Os dados disponíveis no momento continuam apontando benefícios expressivos da vacinação contra a dengue. Segundo o Ministério da Saúde, a vacina do Butantan tem eficácia de 65% e está associada a uma redução de mais de 90% dos óbitos por dengue. Ademais, malgrado importantes, os eventos adversos registrados permanecem numericamente baixos diante do universo de pessoas vacinadas.

Isso não significa minimizar a gravidade das ocorrências. Longe disso. Cada caso deve ser investigado exaustivamente, sobretudo as causas dos dois óbitos registrados. As famílias afetadas merecem respostas. A sociedade idem. Mas o momento pede serenidade, não exploração irresponsável do medo das pessoas. Não há razão para desconfiar do sistema brasileiro de vacinação. Há, isto sim, ainda mais razões para considerá-lo seguro.

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