Sarampo: alerta para outros estados após 18 casos no Brasil
Sarampo: alerta para outros estados após 18 casos no Brasil

A rápida propagação do sarampo em três municípios paulistas levou o Ministério da Saúde a antecipar uma estratégia de vacinação em massa, válida até mesmo para quem já completou o esquema com duas doses da tríplice viral. A medida, que começa na segunda-feira, 3 de agosto, e se estende até 1º de setembro, atinge todas as pessoas de 6 meses a 59 anos que residam ou trabalhem em São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo. O Brasil soma, em 2026, 18 casos confirmados da doença, sendo 15 no estado de São Paulo — 12 na capital, dois em São Bernardo do Campo e um em Guarulhos.

Sem exigência de comprovação do histórico vacinal, a campanha pretende encurtar a cadeia de transmissão antes que o vírus encontre bolsões de pessoas não imunizadas. A concentração geográfica dos casos levou o Ministério da Saúde a classificar a situação como um surto ativo, com casos interligados entre si. Segundo a pasta, São Paulo é o único estado brasileiro com confirmações neste momento.

A movimentação ocorre pouco depois de o Brasil recuperar, em 2024, o certificado de país livre do sarampo. O reconhecimento havia sido perdido em 2019, ano em que o país registrou cerca de 18 mil casos.

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Por que São Paulo preocupa tanto?

São Paulo reúne fatores que facilitam tanto a entrada quanto a disseminação do vírus. De acordo com Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), cerca de 20% da população brasileira vive no estado e 10% está na Grande São Paulo. A densidade demográfica, o deslocamento intenso e a presença de portas de entrada internacionais — como o Aeroporto Internacional de Guarulhos, o porto de Santos e o aeroporto de Campinas — potencializam o contágio.

Kfouri reforça que essas características tornam o bloqueio mais difícil quando o vírus começa a circular. “Em São Paulo há, sem dúvida, uma zona de muito perigo para a reintrodução do vírus e de mais difícil controle de bloqueio dessas ações”, afirmou.

Dos 15 casos registrados no estado, 12 foram na capital. Dois pacientes foram infectados fora do país, retornando da Bolívia e da Guatemala. Os demais tiveram transmissão local, e os dois casos de São Bernardo do Campo foram ligados a contatos com pacientes da capital.

O sarampo pode avançar para outros estados?

Sim. O risco de emergirem novos focos não está restrito a grandes metrópoles. O fator decisivo é a proporção de pessoas suscetíveis em determinado território. Se houver um grupo considerável sem imunização, o vírus consegue se estabelecer mesmo em cidades menores, avalia Kfouri.

“Todos os locais são passíveis de surto”, explica o especialista. A proteção, segundo ele, só é eficaz quando a cobertura vacinal é alta e homogênea, distribuída por todas as faixas etárias e regiões. Além disso, é preciso manter vigilância ativa para isolar casos suspeitos, confirmar diagnóstico, rastrear contatos e aplicar vacinação de bloqueio.

Por que vacinar novamente quem já tem as duas doses?

A vacinação indiscriminada é uma ferramenta reconhecida para bloquear surtos. Segundo Kfouri, a estratégia alcança pessoas que não se vacinaram, ainda que não tenham comprovação, e ainda funciona como um reforço para quem já foi imunizado. A vacina não garante 100% de proteção, e uma dose extra pode elevar a resposta imune de quem não respondeu adequadamente às doses anteriores.

“Uma dose adicional reduz esse risco de falha vacinal, mas tomar uma dose a mais não traz nenhum malefício”, afirmou.

Ana Karolina Marinho, vice-coordenadora do Departamento Científico de Imunização da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), lembra que a vacinação ampliada é uma medida internacionalmente aceita para controle de epidemias. “Ao aumentar rapidamente o número de pessoas protegidas ao redor dos casos e em áreas de maior risco, diminui-se a quantidade de indivíduos suscetíveis e reduz-se a possibilidade de o vírus continuar circulando”, acrescentou.

Bebês também entram na campanha

Em situações de risco, crianças de 6 a 11 meses podem receber a chamada “dose zero” da tríplice viral. Normalmente, a vacina é aplicada a partir de 1 ano de idade, mas a proteção antecipada, ainda que parcial, reduz a chance de formas graves da doença em bebês.

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“Dar uma dose entre 6 e 11 meses não vai conseguir uma proteção ideal. Mas dá uma proteção parcial que faz com que a gente reduza a chance de essa criança pequena adoecer, especialmente de forma grave”, explicou Kfouri.

Cobertura abaixo da meta intensifica alerta

A preocupação com a disseminação aumenta diante das taxas de vacinação no estado de São Paulo. Em 2026, a primeira dose da tríplice viral alcançou apenas 77,5% da população-alvo, enquanto a segunda dose atingiu 65,5%. A meta do Ministério da Saúde é de 95% para ambas. Em 2025, esses índices eram de 94% e de 84,4%, respectivamente.

A meta elevada existe para reduzir drasticamente o número de suscetíveis e impedir a manutenção de cadeias de transmissão. Kfouri alerta que, uma vez perdido o controle, a epidemia se instala com rapidez. “Depois que você perde o controle, a epidemia se instala e é muito difícil de segurar”, disse.

Sintomas e complicações do sarampo

O sarampo é causado por um vírus altamente transmissível e pode levar a complicações graves, especialmente em crianças menores de 5 anos, adultos acima de 20 anos, pessoas desnutridas ou com baixa imunidade. As complicações mais comuns incluem:

  • otite média
  • broncopneumonia
  • diarreia
  • encefalite

Óbitos podem ocorrer principalmente em decorrência de pneumonia e encefalite.

Os principais sintomas são febre igual ou superior a 38,5°C, manchas avermelhadas que começam na cabeça e se espalham em direção aos pés, tosse seca, coriza e conjuntivite não purulenta.

Vacina é segura?

As vacinas contra o sarampo são bem toleradas e provocam poucas reações. Os efeitos mais comuns, segundo Marinho, incluem dor no local da aplicação, febre baixa ou um discreto exantema. A vacina é contraindicada apenas para quem já teve anafilaxia em dose anterior ou para pessoas gravemente imunocomprometidas.

Eventos pós-vacinais, denominados ESAVI, podem ocorrer e gerar manifestações leves parecidas com o sarampo, popularmente chamadas de “sarampinho”. Esses quadros, no entanto, são brandos e não representam risco relevante.