Um perigoso ritual de 'desintoxicação' que se popularizou nas redes sociais e levou um coach à morte no mês passado está sendo adotado por diversas celebridades, como o ator britânico Orlando Bloom, a estrela de reality Ferne McCann e o ator americano Will Smith, entre outros. Executivos e engenheiros de alta performance de empresas de tecnologia na Califórnia também aderiram à prática, em busca de um suposto 'reinício' mental e físico para lidar com o estresse crônico.
O que é o kambô?
Conhecido como 'vacina do sapo', o tratamento envolve a ingestão do veneno extraído da perereca gigante Phyllomedusa bicolor, também chamada de rã-kambô, sapo-macaco gigante ou sapo-verde. O animal é capturado, esticado e submetido a estresse até secretar uma substância tóxica pela pele. A secreção é coletada, seca e reativada. Pequenas queimaduras são feitas na pele dos participantes, geralmente nos braços ou pernas, em fileiras organizadas, e a toxina é aplicada diretamente nas feridas por um suposto xamã. Em minutos, o corpo reage violentamente: vômitos intensos, tonturas, desmaios e diarreia. Os praticantes chamam essa reação de 'purificação', mas não há evidência científica de eficácia para qualquer condição médica.
Famosos que aderiram
Orlando Bloom, astro de 'O Senhor dos Anéis' e 'Piratas do Caribe', revelou à revista 'GQ' que já fez o tratamento várias vezes. Ele descreveu a experiência como 'brutal', com vômitos intensos, mas disse que depois se sentiu 'limpo e aberto'.
Mortes associadas ao kambô
O kambô voltou aos noticiários após a morte do britânico Kristian Trend, um coach de bem-estar e sobrevivente de câncer, de 40 anos. Ele sofreu uma reação extrema durante uma cerimônia em Leicester, na Inglaterra. Um homem de 41 anos foi preso sob suspeita de administrar o veneno, mas foi liberado sob fiança. A polícia continua investigando.
'Esses profissionais não possuem licença nem treinamento. Tampouco precisam ser certificados por qualquer entidade com reconhecimento legal', afirmou Jae Lee, advogado especializado em lesões corporais, ao 'Sun'. 'A falta de regulamentação torna difícil responsabilizar os praticantes por negligência.'
Acredita-se que Kristian seja uma das pelo menos seis pessoas no mundo que morreram após o uso da substância. Uma das vítimas foi a cineasta mexicana Marcela Alcázar Rodríguez, de 33 anos, em dezembro de 2024. Após o início do ritual, ela teve vômitos violentos e diarreia severa, foi levada ao hospital, mas não resistiu.
Origem e proibição
Originalmente, o kambô é usado por etnias como Katukina, Yawanawá e Kaxinawá, na Amazônia, para combater a 'panema' (energia negativa) e como revigorante físico e espiritual. O procedimento é tradicionalmente realizado por xamãs indígenas. No Brasil, a prática foi proibida em 2004 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) por falta de comprovação de segurança ou eficácia. Também é proibida na Austrália e no Chile. Apesar disso, sites britânicos vendem bastões de kambô com toxina seca por cerca de R$ 440.



