Nos últimos cinco anos, a menopausa passou por uma transformação que vai muito além do surgimento de novos tratamentos. A principal mudança foi a forma como a medicina passou a enxergar um tratamento antigo: a terapia hormonal. Depois de mais de duas décadas sob a sombra de estudos que associaram a reposição hormonal a câncer e doenças cardiovasculares, médicos e sociedades científicas passaram a defender uma abordagem mais individualizada, baseada no perfil de risco de cada mulher.
Como o hormônio virou vilão
Parte da história começa em 2002, quando o estudo americano Women's Health Initiative (WHI), que acompanhou mais de 16 mil mulheres, encontrou aumento do risco de câncer de mama, infarto, AVC e trombose entre usuárias de terapia hormonal. A repercussão foi imediata. Em poucos anos, milhões de mulheres interromperam o tratamento, médicos passaram a prescrever hormônios com muito mais cautela e a terapia hormonal ganhou fama de tratamento perigoso.
"O hormônio foi demonizado", resume Mauricio Abrão, ginecologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo e coordenador do curso de Medicina da Faculdade BP. Segundo ele, o problema é que as conclusões do estudo acabaram sendo extrapoladas para situações que não haviam sido avaliadas. A pesquisa analisou apenas um tipo específico de estrogênio, administrado por via oral, associado a um determinado tipo de progesterona, em mulheres que tinham, em média, 63 anos de idade — mais de uma década após a menopausa.
Nova avaliação dos riscos
Nos anos seguintes, novos estudos passaram a mostrar que o risco variava de acordo com fatores como idade, momento de início do tratamento, dose utilizada e via de administração. Uma análise publicada em 2024 com dados de mais de 10 milhões de mulheres americanas com mais de 65 anos encontrou redução de mortalidade e de alguns desfechos cardiovasculares entre usuárias de determinadas formulações hormonais. Outro estudo publicado neste ano pelo BMJ não encontrou aumento da mortalidade entre mulheres que utilizaram terapia hormonal durante a menopausa.
Em novembro de 2025, a FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, anunciou a retirada das advertências relacionadas a risco cardiovascular, câncer de mama e demência das bulas de diversos produtos hormonais, após revisar evidências acumuladas nas últimas duas décadas. A recomendação continua sendo individualizar a indicação e avaliar riscos e benefícios caso a caso, mas a medida simbolizou uma mudança importante na forma como a terapia hormonal passou a ser interpretada.
Individualização do tratamento
Hoje, a decisão de iniciar ou não uma terapia hormonal leva em consideração idade, tempo desde a menopausa, sintomas predominantes, histórico familiar, risco cardiovascular, risco de câncer e preferências da paciente. "A partir da escuta ativa das pacientes, chegamos às opções de reposição hormonal e discutimos os riscos e benefícios de cada uma", afirma Raquel Magalhães, ginecologista do Hospital Nove de Julho, da Rede Américas.
Essa mudança ocorreu porque a medicina passou a reconhecer que a queda do estrogênio afeta muito mais do que as ondas de calor. O hormônio participa de processos ligados à cognição, memória, humor, qualidade do sono, saúde óssea, função cardiovascular, sexualidade e integridade dos tecidos vaginais e urinários.
Novas formas de administração
Outra mudança importante ocorreu na forma de administrar os hormônios. Nos últimos anos, cresceu a preferência por formulações transdérmicas, como géis e adesivos. Segundo Magalhães, essas opções apresentam menor risco cardiovascular e tromboembólico porque evitam a passagem inicial pelo fígado. A progesterona continua sendo necessária para mulheres que mantêm o útero, já que protege o endométrio contra o desenvolvimento de câncer.
Desinformação nas redes
A reabilitação da terapia hormonal teve um efeito colateral. Ao mesmo tempo em que mais mulheres passaram a buscar informações sobre menopausa, cresceu a oferta de tratamentos vendidos como soluções para rejuvenescimento, ganho de massa muscular, emagrecimento e aumento da disposição. Nesse cenário ganharam espaço conceitos como "modulação hormonal", hormônios "bioidênticos" e implantes hormonais conhecidos como pellets.
As principais sociedades médicas brasileiras afirmam que muitas dessas promessas não encontram respaldo científico. "Modulação hormonal não existe", diz Magalhães. "Hormônios são medicamentos e precisam ser usados com indicações precisas, avaliação de riscos e acompanhamento médico." Segundo ela, a promessa de resultados extraordinários é justamente o principal sinal de alerta. "O objetivo da terapia hormonal é melhorar sintomas e qualidade de vida com segurança. Não é promover rejuvenescimento, emagrecimento ou ganho de massa muscular."
O que realmente mudou
Passadas mais de duas décadas do estudo que transformou os hormônios em vilões, a menopausa vive uma nova fase. A principal mudança não foi a descoberta de um tratamento revolucionário, mas a compreensão de que nem toda mulher apresenta os mesmos riscos, sintomas ou necessidades. A reposição hormonal deixou de ser vista como algo que deveria ser evitado a qualquer custo e passou a ser encarada como uma ferramenta terapêutica que pode trazer benefícios importantes quando utilizada da forma correta. O desafio agora é outro: separar a ciência que reabilitou os hormônios das promessas que tentam transformá-los em fonte da juventude.



