Plantas medicinais da Amazônia: benefícios e cuidados
Plantas medicinais da Amazônia: benefícios e cuidados

O conhecimento tradicional que atravessa gerações na Amazônia encontrou na ciência um aliado importante. Pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia (Unir) investigam espécies como copaíba, andiroba, unha-de-gato e jambu para entender os compostos naturais que explicam seus efeitos no organismo. A professora e doutora em Botânica Osvanda Silva de Moura afirma que essas plantas, encontradas com facilidade em Rondônia, têm potencial terapêutico que vai muito além do preparo de chás caseiros.

O que são plantas medicinais

De acordo com Osvanda, plantas medicinais são vegetais que possuem substâncias ativas capazes de interagir com o corpo humano. "Plantas medicinais são vegetais que contêm substâncias ativas com propriedades terapêuticas capazes de prevenir, aliviar ou até mesmo tratar determinados problemas de saúde. Elas são a base da medicina natural e tradicional, podendo ser utilizadas em chás, compressas, emplastos e até mesmo como matéria-prima para medicamentos fitoterápicos e industrializados", explica.

Esses compostos são produzidos pelo metabolismo da própria planta e, quando ingeridos ou aplicados, podem desencadear respostas biológicas específicas. "As propriedades das plantas medicinais vêm dos princípios ativos, que são compostos químicos produzidos pelo metabolismo da planta. Quando entram em contato com o organismo humano, essas substâncias interagem com as células, promovendo efeitos analgésicos, anti-inflamatórios, calmantes, diuréticos, entre outros", afirma a pesquisadora.

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Amazônia é uma "farmácia viva"

Osvanda destaca que a floresta amazônica funciona como uma verdadeira farmácia viva, reunindo centenas de espécies com potencial terapêutico. Entre as variedades encontradas em Rondônia estão:

  • Unha-de-gato
  • Copaíba
  • Andiroba
  • Crajiru
  • Quina
  • Pracaxi
  • Jambu
  • Aroeira
  • Terramicina
  • Capim-santo
  • Espinheira-santa
  • Mastruz
  • Diferentes variedades de boldo

Além das espécies nativas da floresta, muitos exemplares cultivados nos quintais fazem parte da rotina de quem busca alternativas naturais para aliviar sintomas e complementar tratamentos. Cada vegetal possui compostos próprios e, por isso, apresenta finalidades diferentes.

Açaí também é planta medicinal

Apesar de ser conhecido principalmente como alimento, o açaí também tem propriedades terapêuticas investigadas pela ciência. Segundo Osvanda, a espécie Euterpe precatoria reúne pelo menos 89 usos descritos em estudos científicos, com aplicações que vão além da alimentação.

A polpa do fruto é utilizada tanto na medicina humana quanto na veterinária e apresenta ação antioxidante, auxiliando no combate aos radicais livres. Pesquisas também indicam potenciais benefícios para os sistemas sanguíneo, cardiovascular, digestivo e urinário.

Copaíba: o "antibiótico da mata"

Entre as espécies mais conhecidas da Amazônia está a copaíba, usada há décadas por comunidades tradicionais e cada vez mais estudada por pesquisadores. O óleo extraído da árvore concentra compostos naturais associados a diferentes aplicações terapêuticas.

"A copaíba é um poderoso extrato vegetal da Amazônia, bastante rico em sesquiterpenos e diterpenos, compostos associados a propriedades que podem auxiliar no tratamento de inflamações, infecções e processos de cicatrização", explica a professora. Estudos realizados por universidades brasileiras já demonstraram atividades anti-inflamatórias, antioxidantes, cicatrizantes e antimicrobianas relacionadas à espécie.

Andiroba: tesouro amazônico

Outra espécie bastante utilizada na região é a andiroba, conhecida tanto na medicina popular quanto na indústria cosmética. O óleo extraído da árvore costuma ser empregado para aliviar dores musculares, contusões, inchaços e desconfortos associados ao reumatismo. Além disso, pode contribuir para a regeneração da pele ao estimular a produção natural de colágeno.

Osvanda faz um alerta importante: "Não devemos ingerir o óleo da andiroba, porque pode causar prejuízos ao estômago e ao fígado". O uso tradicional ocorre principalmente de forma tópica. Já as folhas podem ser utilizadas no preparo de chás destinados ao alívio de alguns sintomas, desde que haja orientação adequada.

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Unha-de-gato e seus benefícios

A unha-de-gato costuma ser utilizada para aliviar dores articulares, combater infecções e fortalecer o sistema imunológico. De acordo com a pesquisadora, um dos efeitos observados é o estímulo à produção de glóbulos brancos, responsáveis pela defesa do organismo. A espécie também auxilia na proteção das células contra danos oxidativos e na redução de substâncias ligadas aos processos inflamatórios.

"O consumo, geralmente feito por meio de chá, exige atenção. O uso não é recomendado para mulheres grávidas ou lactantes, pessoas com doenças autoimunes ou pacientes que tenham passado por transplante de órgãos", ressalta Osvanda.

Jambu: muito além da dormência na boca

Conhecido por provocar uma sensação de dormência na boca, o jambu também é considerado uma planta medicinal. Esse efeito é causado pela presença de uma substância chamada espilantol. O composto pode auxiliar no alívio de dores de dente, gengivite e alguns problemas digestivos.

Além da ação anestésica, pesquisas investigam o potencial anti-inflamatório da espécie e possíveis aplicações nas áreas farmacêutica, odontológica e cosmética.

Espinheira-santa para gastrite

Entre as espécies encontradas com frequência em Rondônia está a espinheira-santa, muito procurada por pessoas que buscam aliviar problemas digestivos. "A espinheira-santa é conhecida pela sua ação gastroprotetora e é muito procurada para auxiliar no tratamento da gastrite", conta a professora. A espécie integra a medicina popular há muitos anos e continua entre as mais utilizadas pela população.

Capim-santo e mastruz nos quintais

Além das variedades nativas, muitos exemplares cultivados em casa fazem parte da rotina de diversas famílias. O capim-santo, geralmente consumido na forma de chá, apresenta efeito calmante e analgésico, além de poder auxiliar no combate à insônia e à ansiedade. Já o mastruz, segundo Osvanda, tem ação vermífuga, anti-inflamatória, expectorante e cicatrizante. A especialista afirma que o mastruz também costuma ser usado como remédio caseiro para aliviar sintomas relacionados a problemas respiratórios.

Eficácia e recomendações de segurança

Osvanda explica que pesquisadores buscam combater a chamada botanofobia, termo usado para descrever o preconceito em relação ao estudo das espécies medicinais e a ideia de que elas não possuem comprovação científica. Para ela, a produção acadêmica tem ampliado o conhecimento sobre os compostos presentes na flora amazônica e contribuído para fortalecer o uso seguro desses recursos na medicina complementar.

Apesar dos benefícios associados a essas espécies, a professora alerta que o fato de serem naturais não significa que possam ser utilizadas sem orientação. Todos os vegetais possuem princípios ativos que podem provocar reações no organismo, principalmente quando associados a medicamentos ou utilizados em excesso. "Embora sejam naturais, as plantas possuem princípios ativos potentes, que podem alterar a absorção ou até mesmo a eficácia dos medicamentos sintéticos", alerta.

A recomendação é informar ao médico ou farmacêutico sobre o uso de qualquer espécie medicinal, especialmente em casos de tratamento para doenças crônicas. Grupos como gestantes, lactantes, crianças, idosos e pacientes com diabetes ou hipertensão exigem atenção redobrada. "O fato de a planta ser natural não significa que ela pode ser utilizada de qualquer forma ou todos os dias", ressalta Osvanda.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomenda que produtos à base dessas espécies sejam adquiridos em locais confiáveis ou em farmácias autorizadas.

Forma correta de preparo dos chás

Uma das formas mais comuns de utilização é por meio dos chás, mas o preparo varia conforme a parte da planta usada. Para folhas e flores, o método indicado é a infusão. Para raízes, cascas e partes mais resistentes, a orientação é a decocção.

"Na infusão, a gente ferve a água e depois despeja sobre as folhas ou flores da planta medicinal. Em seguida, abafa por cerca de 10 a 15 minutos. Na decocção, a gente ferve a água junto com a planta", explica Osvanda. Segundo ela, um erro frequente é colocar folhas para ferver diretamente na água. "Muitas vezes a pessoa coloca a água para ferver junto com as folhas. Não é a forma correta. Acaba virando apenas um chá sem a função esperada", afirma.

Além dos chás, os vegetais também podem ser utilizados na forma de xaropes, pomadas, compressas, cataplasmas, tinturas, emplastos, inalações e lambedores.

Coleta e armazenamento

Os cuidados começam antes mesmo do preparo. Osvanda recomenda que a coleta seja realizada apenas em locais livres de contaminação. Também é importante observar se o material apresenta sinais de fungos, manchas escuras ou presença de insetos e larvas. A secagem deve ocorrer logo após a colheita para evitar a proliferação de microrganismos.

Depois de secas, as espécies devem ser armazenadas em recipientes apropriados. "As plantas devem ser guardadas em potes de vidro escuro, com tampa hermética, em local fresco, arejado e protegido da luz", orienta. Ela também recomenda evitar panelas de alumínio durante o preparo, já que o material pode reagir com determinados compostos presentes nos vegetais.

Plantas medicinais no SUS

O uso de plantas medicinais e fitoterápicos integra as políticas públicas brasileiras desde 2006. De acordo com a professora, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares e a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos incentivam o uso seguro dessas espécies no Sistema Único de Saúde (SUS). Existe uma relação nacional de espécies autorizadas para uso, e o Ministério da Saúde oferece capacitações gratuitas para profissionais interessados na área.