Neurodivergências: hiperfantasia, sinestesia e outras variações do cérebro
Neurodivergências: hiperfantasia, sinestesia e mais

O cérebro humano, além de seu funcionamento considerado comum, pode desenvolver particularidades únicas em cada indivíduo, originando o que conhecemos como neurodivergências. O termo não é médico e deriva de "neurodiversidade", conceito criado pela socióloga australiana Judy Singer na década de 1990 para descrever o funcionamento cerebral singular.

"Não é uma 'doença' para a qual devemos procurar 'cura'", afirma a neurologista Ana Carolina Gomes, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. As neurodivergências são variações naturais do funcionamento cerebral.

Atualmente, estima-se que cerca de 20% da população mundial seja neurodivergente. Para Fabiano Moulin, neurologista e professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), condições como hiperfantasia, sinestesia, discalculia, prosopagnosia e misofonia representam extremos em uma curva de normalidade.

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"Não absorvemos a realidade como ela é; absorvemos a realidade como nós somos", explica Moulin, destacando que o "normal" é apenas um consenso de interpretação do real. A própria evolução, segundo ele, explica essa diversidade: "A primeira necessidade para a seleção natural é a variabilidade, e com nosso funcionamento cerebral não seria diferente".

Hiperfantasia: imaginação realista

Na hiperfantasia, o córtex visual reage a pensamentos com intensidade semelhante à de estímulos reais. Imaginar uma maçã pode variar de um mero esboço a projeções vívidas, considerando o espectro que vai da afantasia à hiperfantasia.

"A afantasia seria a impossibilidade de visualizar imagens mentais, enquanto a hiperfantasia é a capacidade extrema dessa construção visual", explica Moulin. Ambas estão ligadas à imagética visual, que permite criar, manipular e recordar imagens mentais sem estímulo visual externo.

Segundo Ana Carolina, esse processo depende da comunicação entre o córtex pré-frontal, que inicia a imaginação, e o córtex visual, que "desenha" as imagens. "Do ponto de vista científico, está dentro do espectro da imaginação mental voluntária", diz José Guilherme Giocondo, psiquiatra do Einstein Hospital Israelita. Diferentemente de alucinações, essas imagens são percebidas como autogeradas e permanecem sob certo controle do indivíduo.

Para a influenciadora e escritora Letícia Wexell, a hiperfantasia sempre fez parte de sua percepção de mundo. "Se eu quiser, consigo sentir o cheiro, morder a maçã, imaginá-la na minha mão, rodando no ar", conta. A referência vem de uma escala que mede o nível de nitidez de imagens mentais.

Letícia trabalha com escrita e RPG, e diz que a condição ajuda a visualizar, descrever e criar com mais riqueza. Além disso, a neurodivergência tem implicações práticas: "Não preciso mudar um móvel de lugar para saber se vai dar certo. Consigo imaginar de maneira muito cheia de detalhes e prever como vai ficar". Sobre experiências boas e ruins, ela compara a hiperfantasia à qualidade do vídeo: "O problema não é a resolução, é o conteúdo".

Sinestesia: sentidos conectados

Para alguns, ouvir música pode também significar enxergar cores ou perceber sabores. Esse fenômeno é conhecido como sinestesia, quando diferentes sentidos se cruzam no cérebro. Na sinestesia, o cérebro processa a mesma informação por mais de uma via sensorial simultaneamente.

Segundo estudos de Julia Simner, professora de neuropsicologia na Universidade de Sussex, já foram identificados mais de 60 tipos de sinestesia, e estima-se que 4% da população tenha a condição. A razão, segundo Ana Carolina, é a hiperconectividade entre áreas que normalmente funcionariam de forma mais independente.

Embora pareça incomum, a associação de sentidos não é estranha ao cérebro, diz Moulin: "Todos somos um pouquinho sinestésicos". Ele cita o exemplo clássico das palavras "Kiki" e "Bouba": a maioria associa a primeira a formas pontiagudas e a segunda a formas arredondadas, evidenciando a conexão entre som e percepção visual.

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Para a influenciadora Ana Eulália, a sinestesia sempre fez parte de sua forma de perceber o mundo. "Eu consigo 'assistir' a uma música", diz. Ela notou a característica aos 14 anos: "Perguntei a um amigo se ele também achava que um trecho da música era rosa, macio e quente, e ele não fazia ideia do que eu estava falando". No dia a dia, a sinestesia é um recurso: "Às vezes, gosto de parar, fechar os olhos e 'assistir' a uma música se desenhando". Episódios negativos são raros, geralmente associados ao estresse: "Já aconteceu de a cor da página de um livro ser doce demais, ou a voz de uma pessoa parecer 'leitosa'".

Prosopagnosia: rostos irreconhecíveis

Reconhecer um rosto familiar pode ser automático para muitos, mas para algumas pessoas a identificação simplesmente não acontece. Essa condição é conhecida como prosopagnosia, ou cegueira facial. "A pessoa até percebe os traços — olhos, nariz, boca —, mas o cérebro não consegue montar o quebra-cabeça para identificar quem é", explica Ana Carolina. A falha ocorre na área fusiforme de rostos, no lobo temporal.

Estima-se que cerca de 2% da população mundial tenha prosopagnosia, diagnosticável pelo Cambridge Face Memory Test. Segundo Moulin, o reconhecimento facial pode variar entre pessoas e até mudar com a escolaridade.

O neuropediatra José Salomão Schwartzman vive com prosopagnosia desde sempre, mas só percebeu a condição na vida adulta. "Eu nunca imaginei que fosse uma condição fora do normal. Para mim, o que eu via era normal." Situações constrangedoras são frequentes: "Já abracei uma mulher que não era a minha" e "já deixei de reconhecer a minha própria filha". No dia a dia, ele usa estratégias como reconhecer pessoas pela voz, gestos ou vestuário. Para assistir filmes, recorre a "pistas" como roupas e falas dos personagens.

Misofonia: sons incômodos

Sons específicos, como mastigação ou respiração, podem causar reações intensas em quem tem misofonia. "Há uma hipersensibilidade no córtex insular anterior, que interpreta sons neutros como ameaças e ativa o sistema de 'luta ou fuga'", detalha Ana Carolina. Segundo a otorrinolaringologista Tanit Ganz Sanchez, esses sons "roubam" o foco e ativam reflexos como taquicardia e sudorese.

A condição pode estar associada a transtorno de ansiedade e transtorno do espectro autista (TEA), com causas genéticas. Em mais de 80% dos casos, as manifestações surgem na infância ou adolescência.

Para a palestrante Abigail Aquino, os primeiros sinais surgiram com o estouro de um pneu. Com o tempo, sons como mastigação passaram a interferir na rotina. Por anos, ela evitava situações que desencadeassem reações. O julgamento alheio era constante: "Interpretam como irritabilidade, intolerância ou falta de educação". Abigail tornou-se ativista da causa, acolhendo mais de 3.300 misofônicos, e escreveu o livro "Misofonia não é frescura". Embora não haja cura, ela afirma ter recuperado o controle sobre suas respostas aos sons.

Discalculia: números sem sentido

Dificuldade com matemática pode ir além da falta de afinidade, configurando discalculia, neurodivergência presente em até 7% da população mundial. Na discalculia, o cérebro tem dificuldade em comparar quantidades, entender sequências e realizar cálculos simples, explica a psicopedagoga Telma Pantano, do Hospital das Clínicas da FMUSP. Ana Carolina afirma que há menor ativação do sulco intraparietal e do lobo parietal inferior, os "centros numéricos" do cérebro.

A discalculia não tem relação com inteligência ou falta de esforço. Para a assistente social Mariana Faria, contas simples são um desafio desde a infância. "Quando entra número, meu cérebro congela", desabafa. Ela só entendeu a condição na vida adulta, mas as dificuldades influenciaram escolhas profissionais: "Deixei de fazer concursos em que eu tinha chance de passar porque eles tinham matemática". No dia a dia, tarefas como lidar com dinheiro são afetadas: "Eu não tenho noção de número, nunca confiro troco".

É uma neurodivergência ou não?

Com as redes sociais, é comum que vídeos curtos sejam usados para autodiagnósticos. "Frequentemente recebemos profissionais narrando situações em que pacientes selecionam informações na internet e se opõem a outros diagnósticos", relata Giulia Paiva, diretora da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia (SBNp). O caminho sugerido é a avaliação formal, que pode diferenciar neurodivergências de transtornos psiquiátricos. "A diferenciação vai requerer uma avaliação ao longo do tempo, feita por múltiplos informantes — pais, professores, colegas, cônjuges", finaliza Giocondo.