Morte de menino após bolada na cabeça alerta para riscos de trauma
Morte de menino após bolada na cabeça alerta para riscos

Um menino de 11 anos, identificado como Bernardo Augusto Rocha, morreu após levar uma bolada na cabeça e bater a cabeça no chão ou na carteira em uma escola municipal de Bertioga, no litoral de São Paulo. O caso acende um alerta sobre os riscos de traumas cranianos em crianças e a importância de observar sinais de complicações nas horas seguintes ao incidente.

O que aconteceu com Bernardo

Segundo a família, Bernardo era uma criança saudável, sem histórico de problemas de saúde ou alergias. Durante uma atividade física na escola, ele foi atingido por uma bola na cabeça. Após o impacto, voltou para a sala de aula, onde passou mal, caiu e bateu a cabeça no chão ou na carteira. A professora não estava na sala no momento, e os próprios alunos avisaram os funcionários, que acionaram o Samu.

Antes da chegada do socorro, um funcionário que já teria sido bombeiro tentou reanimar o menino. Depois, uma funcionária o levou de carro até a Unidade Bertioguense de Especialidades Médicas (Unibem), por ser o serviço de saúde mais próximo. A família questiona o atendimento prestado na unidade e afirma que um erro durante a intubação teria prejudicado a respiração de Bernardo e agravado seu estado. Posteriormente, o Samu assumiu a ocorrência e o transferiu ao Hospital de Bertioga, onde a morte foi constatada após cerca de 40 minutos de tentativas de reanimação.

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O que dizem os neurologistas

Neurologistas ouvidos pelo g1 destacam que qualquer trauma cerebral pode ser potencialmente perigoso, mesmo sem sangue aparente ou corte, dependendo da intensidade da pancada e da região afetada. O crânio protege o cérebro de uma maneira como nenhum outro órgão é protegido. Estudos mostram que menos de 1% dos traumas cranianos em crianças geram sangramento cerebral, mas alguns traumas mais fortes, especialmente na região das têmporas – próximas das orelhas –, podem ser mais graves e levar à morte.

O neurologista e professor de medicina da PUC-RS William Martins acredita que o menino tenha tido um trauma da bolada agravado pela queda, levando a um hematoma epidural: um rompimento de artéria que empurrou o cérebro para o lado e acabou causando um AVC. "Provavelmente, a causa de óbito foi o trauma, porque o legista informou que houve uma hemorragia cerebral e um infarto cerebral importantes", afirma Martins.

Por que uma pancada na cabeça pode se agravar horas depois?

Na região das têmporas do cérebro, algumas artérias suprem a meninge, que é como uma pele protetora ao redor do cérebro. A artéria meníngea média fica bem embaixo do osso, por exemplo. Quando ocorre um trauma na região temporal, essas artérias podem se romper. A pessoa pode perder um pouco a consciência e depois voltar ao normal, mas o sangramento pode continuar ocorrendo.

O menino parece ter ficado bem e foi para a sala de aula. Isso é chamado na literatura médica de intervalo lúcido. A pessoa tem um trauma, conversa com o médico de forma consciente, não tem dor de cabeça, e depois entra em coma. "Isso ocorre porque o sangramento vai ocorrendo de maneira bem gradual e pequena, mas chega um momento em que o cérebro não tem mais como compensar. Não tem para onde sair a pressão cerebral que empurra o cérebro para o lado. É o que a gente chama de herniação cerebral. Parte do cérebro vai pra baixo e comprime algumas artérias cerebrais", explica Martins.

O médico destaca que, após traumas cerebrais, é sempre importante o paciente ficar em observação por 24 horas e não dormir em seguida.

Quais sinais de alerta exigem atendimento imediato?

Para evitar complicações de eventuais hemorragias cerebrais, é preciso observar alguns sinais, como:

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  • Sonolência excessiva
  • Confusão
  • Perda de consciência, mesmo que breve
  • Vômito
  • Dor de cabeça
  • Dificuldade para falar
  • Fraqueza
  • Choro inconsolável

Caso o paciente tenha algum desses sinais, pode ser solicitada uma tomografia para avaliar um possível hematoma, que pode ser cirúrgico. Martins explica que tomografias não são feitas em Unidades Básicas de Saúde, nem em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), mas estas geralmente encaminham o paciente para hospitais onde o exame é feito. Às vezes, os hematomas crescem tão rapidamente que até mesmo dentro do hospital pode ser difícil salvar o paciente. Identificado o hematoma com a tomografia, já se inicia uma luta contra o tempo para iniciar a cirurgia e estancar o sangramento interno.

O neurologista da USP e professor titular da Faculdade de Medicina do ABC Renato Anghinah acrescenta que, quando há situações de trauma na cabeça no esporte, é importante o atleta parar a atividade para evitar a chamada síndrome do segundo impacto, que aumenta em até 3% o risco de edema cerebral.

O que diz a prefeitura

Em nota, a Prefeitura de Bertioga informou que o menino recebeu atendimento imediato na Unibem, com início dos protocolos de emergência e reanimação antes da transferência ao hospital, lamentou a morte e prestou solidariedade à família, mas não respondeu ao questionamento sobre a denúncia de falha no atendimento médico. Os parentes também pediram acesso às imagens da escola para esclarecer como ocorreu a queda.

Um exame preliminar do Instituto Médico Legal (IML) apontou que Bernardo teve um "aneurisma na cabeça", que evoluiu para um infarto, enquanto o atestado de óbito registrou "insuficiência respiratória" como causa da morte. Exames complementares ainda estão em andamento.