Lucas Hoffmann, médico, saiu de um plantão andando e, horas depois, não conseguia mover as pernas. A causa foi um sangramento provocado por um cavernoma na medula espinhal, uma malformação vascular rara. Desde então, ele enfrenta uma jornada de reabilitação para tentar voltar a andar.
O que é o cavernoma?
O cavernoma é uma malformação vascular causada por alteração nos vasos sanguíneos do cérebro ou da medula espinhal. Forma um emaranhado de pequenos vasos envoltos por uma estrutura semelhante a uma caverna, aumentando o risco de sangramentos. A doença é silenciosa e muitos pacientes só descobrem após um sangramento. A condição é rara: cerca de uma em cada 200 pessoas tem essa malformação no cérebro, onde é mais frequente. No caso de Lucas, apenas 2% dos cavernomas surgem na medula espinhal.
Do consultório à cadeira de rodas
Lucas atendia pacientes no fim de 2025 quando sentiu fortes dores na cervical. Uma enfermeira percebeu que ele arrastava uma perna ao andar. Após exames, descobriu o cavernoma na medula espinhal. “Mesmo como médico, nunca tinha ouvido falar na doença. A primeira vez foi recebendo o meu diagnóstico”, explica.
O sangramento na medula é grave. A medula espinhal é um feixe de nervos que conecta o cérebro ao corpo, transmitindo comandos para os músculos. O cavernoma depositou sangue nesse feixe, gerando lesão e interrompendo a comunicação. Lucas perdeu o movimento das pernas e a sensibilidade até o umbigo.
Reabilitação e novo sangramento
De 2025 até início de 2026, Lucas dedicou-se à reabilitação. Em seis meses de fisioterapia, recuperou sensibilidade até o umbigo e já sentia a coxa. Planejava voltar ao consultório em agosto. Porém, em abril de 2026, sofreu novo sangramento, com dor intensa na cervical e perda de força nos braços. O sangramento subiu dois níveis na medula, atingindo a vértebra C4 e comprometendo o braço. Havia risco de perder completamente os movimentos.
Cirurgia inovadora com 180 eletrodos
Lucas foi transferido para São Paulo, operado pelo neurocirurgião Francisco Sampaio. A técnica de monitoramento neurológico intraoperatório utilizou 180 eletrodos no corpo durante a cirurgia. Um médico monitorava cada movimento do bisturi: ao tocar em área ligada ao braço esquerdo, a equipe parava imediatamente. “Antigamente, nos guiávamos pela anatomia e esperávamos o paciente acordar para saber sequelas. Hoje, sabemos em tempo real a consequência de mexer na área e preservamos a medula”, explica Sampaio. A cirurgia durou oito horas e foi sucesso: o cavernoma foi retirado completamente e Lucas saiu movimentando o braço com força total.
Recuperação: uma incógnita
Não existe medicamento ou procedimento que reverta a lesão medular. A melhora depende da capacidade de recuperação do organismo. O neurocirurgião Jorge Pagura explica: “A medula é como um cabo, sem neuroplasticidade. As respostas têm muitas variáveis.” Até 30% dos pacientes podem ter alguma recuperação com reabilitação, mas não há garantia. No caso de Lucas, os médicos observaram chance de recuperação, mas foram claros: é possibilidade, não certeza.
Lucas mantém esperança, mas foca em sua missão como médico. Longe do consultório, usa redes sociais para falar sobre a doença e compartilhar a rotina como cadeirante em recuperação. Hoje, 77 mil pessoas acompanham seu tratamento. “Tento ser força para quem vive o que vivo. Descobri que nem todos os ambientes são acessíveis. Sigo exercendo a medicina de outras formas, ajudando quem está na mesma situação”, afirma.
Polilaminina: ainda em fase inicial
A polilaminina, substância que pode ajudar na regeneração medular, está em fase inicial de estudos. A pesquisa, liderada por Tatiana Sampaio, mostrou indícios em lesão aguda, mas ainda não foi publicada em revista científica revisada por pares. O laboratório Cristália obteve autorização da Anvisa para testes em humanos, mas a fase 1 ainda não começou, aguardando análise do comitê de ética. Cerca de 60 pacientes receberam a substância por uso compassivo, mas nenhum outro caso de recuperação de movimentos foi divulgado publicamente.



