Rayana tem 18 anos, é cadeirante e fala três línguas – o Waiwai do seu povo, o português e o inglês. Quando nossa equipe chegou à Aldeia Mapuera, descobrimos um problema que nenhum equipamento médico resolve: como entregar uma consulta de qualidade quando médico e paciente não falam a mesma língua? A maior parte da população fala apenas Waiwai.
O encontro com Rayana
Na segunda manhã, vendo nossa dificuldade, Rayana manobrou sua cadeira de rodas entre os bancos da escola que servia de consultório e começou a traduzir. Ela não estava em nossos planos. Mas foi Rayana quem fez com que boa parte dos atendimentos daquela semana se tornasse algo real, ou seja, não um procedimento registrado em planilha, mas uma conversa de verdade entre médico e paciente.
A expedição para Mapuera
Prefiro começar por Rayana porque os números desta expedição, por mais expressivos que sejam, não chegam perto de explicar o que aconteceu em Mapuera. A aldeia fica a três dias de barco de Oriximiná, a cidade mais próxima. Em vários trechos dos rios Trombetas e Mapuera, a correnteza é tão forte que as embarcações precisam ser empurradas à mão. Nas aldeias da região vivem cerca de 1,3 mil indígenas. Levar um especialista médico até lá não é questão de agenda. É questão de logística e até de custos.
Quando precisa de um exame ou de uma emergência, um indígena aldeado – aquele que não tem laços fortes com a sociedade que conhecemos e mora de forma isolada – não precisa somente do transporte aéreo para chegar ao centro de saúde mais próximo; ele precisa de local para ficar, de acompanhante, de comida e de apoio para interagir com uma sociedade que não faz parte de seu cotidiano.
No final de abril, levamos seis médicos especialistas e um cirurgião dentista para Mapuera. Quase 500 pessoas, mais de um terço da população local, foram atendidas.
Procedimentos e infraestrutura
Dentre os mais de 3 mil procedimentos registrados, cerca de 250 foram ultrassons e quase 2 mil foram exames oftalmológicos. Em ambos os casos, os pacientes necessitariam desse difícil deslocamento.
Para que essa semana fosse possível, foi necessário antes construir as condições de operação. A Casa de Saúde de Mapuera precisava de reforma. Materiais foram transportados de Santarém a Oriximiná por barco de linha e de lá em lanchas pequenas, empurradas à mão nas corredeiras. Uma equipe com apoio da comunidade local passou 20 dias em campo para erguer três banheiros com fossa séptica, uma cozinha nova, beliches para 16 pessoas e um sistema elétrico funcional. Infraestrutura que permanece para ser utilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) e para quem vier depois.
Impacto na saúde e na floresta
A parceria da Zoé com o DSEI, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do Sistema Único de Saúde (AgSUS) me fez enxergar o que os relatórios de saúde quase nunca mostram: levar especialistas a territórios indígenas não é só prestar atendimento. É desafogar o SUS, reduzir custos do sistema, preservar a cultura desses povos e, no fim, preservar a floresta.
Há uma lógica que raramente aparece nos relatórios de saúde: o indígena aldeado que permanece na aldeia não desmata. Mas muitas vezes ele não consegue permanecer. Uma doença sem tratamento local vira uma migração — primeiro temporária, depois definitiva. Ele vai em busca de hospital, acaba na periferia de Oriximiná ou de Santarém, perde o vínculo com o território e a floresta perde um guardião.
Quando conseguimos levar saúde de qualidade até Mapuera, não estamos apenas evitando um adoecimento — estamos contribuindo para que aquelas famílias continuem onde sempre estiveram, dentro de uma floresta que depende delas tanto quanto elas dependem da floresta. Saúde indígena, nesse contexto, não é só política pública. É parte de qualquer política ambiental séria.
Custos e benefícios
Cada evacuação aérea de um indígena de Mapuera até Santarém ou Belém custa caro — em dinheiro, em tempo, em sofrimento. O paciente chega sozinho a uma cidade desconhecida, sem falar português, sem rede de apoio. Muitas vezes precisa de internação não por gravidade clínica, mas por falta de condições de retornar. Os 250 ultrassons que fizemos em uma semana, dentro da aldeia, provavelmente evitaram dezenas dessas viagens. Os quase 2 mil exames oftalmológicos identificaram condições que, se não tratadas, se tornariam emergências. O custo de levar o especialista até lá é uma fração do que o sistema gasta quando o paciente precisa ir até o especialista. A conta fecha e sobra dignidade.
Desafios logísticos
Operar nessa escala é caro e logisticamente cruel. Cada parafuso da reforma da Casa de Saúde, cada caixa de medicamento e cada profissional voluntário precisam chegar até lá. Boa parte do nosso trabalho é, na prática, transformar dinheiro e tempo em presença — fazer alguém estar lá, com o equipamento certo, na semana certa. Quando isso acontece, o resultado se mede em consultas, exames e cirurgias evitadas. Quando dá errado, ninguém percebe por que o paciente simplesmente não é atendido, e a invisibilidade segue como sempre foi.
Saúde como direito
Se o Brasil decidiu, na Constituição, que saúde é direito de todos, então precisa aceitar que esse direito não pode depender da sorte geográfica de onde alguém nasceu. Mapuera não é exceção, é um retrato ampliado de um problema que o País ainda trata como periférico. Nossa experiência junto ao governo mostrou que é possível fazer diferente quando há coordenação, vontade política e capacidade de execução. O que falta agora não é modelo nem diagnóstico. Falta transformar iniciativas que funcionam em política de escala. Porque, no fim, o que está em jogo não é apenas acesso à saúde, mas sim uma medida concreta de quanto vale a saúde no Brasil.



